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terça-feira, março 20, 2012

Renato Manfredini Jr - Casa velha, em ruínas...

"Zapeando" pela Wikipédia, deparei-me com a biografia do Renato Russo e a menção à uma certa redação, "Casa velha, em ruínas...", feita nos tempos de escola, quando ele ainda tinha perto de seis anos. O artigo falava que a redação estava "disponível na íntegra". Ora pois, fui atrás da dita cuja e achei o manuscrito que agora compartilho aos que, assim como eu, desconheciam-no...


Manuscrito retirado de Memorial Renato Russo (Site Oficial)

terça-feira, janeiro 17, 2012

Diana Nobre - Do trabalhador dócil ao devir-animal: um viver ético, estético e político em "A Metamorfose" de Franz Kafka

Através do método genealógico de Michel Foucault, este trabalho busca ser um campo de problematizações em torno da questão do trabalho imerso na obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka. Com isso, esta análise percorre desde a docilidade do caixeiro viajante Gregor Samsa até o seu devir-animal, em que se mostra metamorfoseado em barata.

Para tanto, partindo das pistas genealógicas de Michel Foucault, a análise da docilidade de Gregor é discutida através da tríade saber-poder-subjetivação, que estão imanentes na sua organização de trabalho, subjetivando-o, constituindo-o enquanto corpo dócil. Todavia, o caixeiro viajante Gregor encontra linhas de fuga que o fazem resistir às malhas microfísicas de poder deste trabalho, provocando assim rupturas nas mesmas. É neste momento, que discutimos sobre o processo de devir-animal de Gregor, através de Deleuze e Guattari (1997).

Além disso, esse devir-animal é problematizado, através da contribuição de diversos autores, enquanto afirmação do paradigma ético, estético e político, pois, é notório o quanto, a partir de sua metamorfose, Gregor se mostra ao mundo como obra de arte. Nestes termos, através de seu devir animal, Gregor Samsa afirma, diante da vida, o quanto é possível o processo de resistência e rupturas frente às cristalizações das organizações de trabalho. Haja vista que, conforme nos propõe Foucault (1988), onde há poder existe possibilidade de resistência.

Diana Nobre (2011)


terça-feira, novembro 08, 2011

Lynn Hunt - A Invenção da Pornografia. Obscenidades e as origens da modernidade 1500 - 1800


A pornografia ainda provoca um intenso debate, mas, atualmente, no ocidente, está ao alcance de consumidores adultos e também de estudiosos. Ela não constituía uma categoria de literatura ou de representação visual independente e distinta antes do início do século XIX. Se a considerarmos como representação explícita de órgãos e práticas sexuais para estimular sensações, então, até meados ou final do século XVIII, a pornografia era sempre algo além. Na Europa, entre 1500 a 1800, era mais frequentemente um veículo que usava o sexo para chocar e criticar as autoridades políticas e religiosas. Porém, emergiu como vategoria distinta nos séculos entre o Renascimento e a Revolução Francesa, por causa, em parte, da difusão da própria cultura impressa, e seu desenvolvimento da pornografia ocorreu a partir dos avanços e retrocessos da atividade desordenada de escritores, pintores e gravadores, empenhados em por à prova os limites do decente e a censura da autoridade eclesiástica e secular.

Embora o desejo, a sensualidade, o erotismo e até mesmo a representação explícita de órgãos sexuais possam ser encontrados em muitos, senão em todos, tempos e lugares, a pornografia como categoria literal e artística parece ser um conceito tipicamente ocidental, com cronografia e geografia particulares. As principais fontes da tradição pornográfica podem ser encontradas na Itália do século XVI e na França e Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, além do antecedentes da Grécia e Roma antigas.

Em 1806 já havia uma tradição pornográfica francesa, que sofria uma forte repressão policial, dirigida à obras pornográficas clássicas e também a tipos mais efêmeros, dentre os quais, encabeçando a lista, figuravam L'Académie des dames e L'École des filles, os principais clássicos do século XVII. Embora os livros franceses contituíssem o núcleo da tradição pornográfica dos séculos XVII e XVIII, a primeira fonte moderna citada pelos estudiosos da pornografia - e por muito de seus sucessores - é o escritor italiano Pietro Arentino, com a obra Ragionamenti (1534-1536), que tornou-se o modelo da porsa pornográfica do século XVII. Nela, o autor desenvolveu diálogos realistas e satíricos entre uma mulher mais velha e experiente e outra jovem e inocente. A composição em diálogos dominou completamente a literatura pornográfica e aparece, por exemplo, em La Philosophie dans le boudoir (1795), do Marquês de Sade.

Entre a publicação de L'Académie des dames e L'École des filles, e a grande reformulação dos escritores pornográficos ocorrida na década de 1740, a produção desse gênero ficou estagnada. As publicações, no entanto, continuaram, especialmente a da pornografia política. Entretanto, nenhuma obra importante surgiu para incorporar-se aos clássicos. A literatura pornográfica ganhou um novo alento com a publicação de obras novas e influentes: Histoire de Dom Bougre, portier des Chartreux (1741) e Le Sopha (1737) de Crébillon; Les Bijoux indiscrets (1748), de Diderot; Thérèse philosophe (1748) e Fanny Hill (1748), de Cleland; além das obras do Marquês de Sade.

Entre 1790 e 1830, dependendo do país - mais cedo na França, depois na Grã-Bretanha -, as funções social e política da pornografia mudam. A pornografia perde sua subversividade política e torna-se um negócio comercial. Sobre esse momento, Wagner escreve: "nada resta a ser dito sobre o aspecto ideológico [...], o prazer sexual é o único objetivo".




FONTE:
HUNT, Lynn (Org.). A Invenção da Pornografia: Obscenidades e as Origens da Modernidade. 1ª ed. São Paulo: Hedra, 1999.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Rotineiricidades #3 - Gabriel García Marquéz & Cem anos de Solidão

" (...) porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra."

O trecho acima é a última frase de "Cem anos de solidão" que é, de longe, a obra mais conhecida de García Márquez e uma das mais conhecidas da literatura mundial. Essa foi a obra pela qual fui apresentado a ele, e também o livro mais incrível que já li.

De forma lacônica e simplista, o livro conta os cem anos de história do povoado de Macondo, fundado por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, além de narrar as peripécias e desventuras vividas por eles e seus descendentes, do primeiro ao último, durante esses cem anos. Na minha parca opinião, é uma leitura mais que recomendada, é obrigatória!

Pois bem, hoje no caminho pro trabalho esse trecho não me saiu da cabeça e, juntamente com ele, me veio à cabeça a lembrança do pouco que li de Gabriel García Márquez. De imediato lembrei também do que me "disse" certa vez René Descartes, "a leitura de todos os bons livros é uma conversação com as pessoas dos séculos passados" (ou nem tão distantes assim) o que, de certa forma, é verdade. Todo escritor passa às suas obras características únicas que acabam por identificá-lo, são essas características que nos fazem ter mais ou menos afeição a determinados autores e, por conseguinte, criar uma forma diferenciada de amizade.

É dessa forma que me sinto quando leio García Marquez, sinto-me conversando com um grande amigo. E, dessa forma, passei os anos acumulando mais e mais amigos, Dostoiévski, Descartes, Nietzsche, Machado, Clarice, Rubem Alves, Veríssimo, dentre outros, ou melhor, dentre muitos outros, vários.

Texto integral, a quem interessar possa...

MARQUÉZ, Gabriel García. Cem Anos de Solidão. 48ª ed. Editora Record: Rio de Janeiro.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Gus Morais - Por uns bytes de memória...

Começo o post dando parabéns, mais que merecido, ao Gus Morais pela tirinha muito, Muito, MUITO BOA.

Não sei quantas pessoas leram ou lerão isto, aqui ou em outros blog, mas sei de uma coisa, muitos vão se identificar com o fim, uma parte com do meio pro fim e, muito poucos, do começo ao ao fim...

Nostalgia pura...

terça-feira, agosto 23, 2011

Viniciu de Moraes - Soneto de Fidelidade

Agora há pouco, em meio a devaneios, peguei-me relembrando desse soneto e, lembrando particularmente, dos dois últimos versos...
















                        ***

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

                        ***
MORAES, Vinicius de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: 1960. Pág. 96.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Rubem Alves - Escutatório

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de ideias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia. 

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto... (O amor que acende a lua, pág. 65.)


FONTE
ALVES, Rubem. Escutatória. Disponível em: A Casa de Rubem Alves

segunda-feira, junho 20, 2011

Um Inferno Próprio - Andrés Neuman

Sóror Juana perdeu a virgindade aos 39 anos com seis ou sete frades uma semana antes de largar o hábito. Ao descasar-se do Senhor, ela só queria uma coisa: sexo, sexo, sexo.
Um conto de Andrés Neuman com ilustrações de Zé Otávio


Quando conheci Juana, embora já não fosse sóror, fiquei louco.

Ou não, não estou me explicando direito: ela estava ficando louca e, portanto, eu.

Sóror Juana abandonou o convento quando tinha 39 anos. Na noite em que a conheci, ela me disse que tudo tinha sido culpa da menopausa. O que você está dizendo?, objetei eu com pedantismo, a menopausa começa aos 50! Juana me olhou como esses padres que estão a ponto de te castigar e decidem te absolver. Ficou me olhando com um sorriso superior, convidativo, com esses olhos pretos como seus dois mamilos, e respondeu tranquilamente: “E o que é que você sabe sobre menopausa de freiras?” Quinze minutos depois Juana pagou as bebidas. Vinte e dois minutos depois, milagre, encontramos um táxi livre na metade da Gran Vía. Quarenta e três minutos mais tarde, ela gritava em cima de mim imobilizando os meus punhos.

Deitar com Juana, e não me entendam mal, foi como recuperar a fé. Graças a ela encontrei a luz, o caminho, o gozo divino, mais ou menos pelas mesmas causas pelas quais ela os havia perdido para sempre. Temo que esteja me explicando mal. Lógico: falar de Juana embaraça minha língua. O que estou tentando dizer é que Juana, sempre segundo o seu relato, perdeu a virgindade com um frade loiro uma semana antes de largar o hábito. Para ser preciso, digamos que perdeu a virgindade com seis ou sete frades, nem todos eles loiros, aos 39 anos de idade. Foi, nas suas próprias palavras, experimentar apenas um e já querer todos. Todos, todos, todos. A repetição não é minha, mas da própria Juana. Assim ela contava, com os olhos entrecerrados e as pernas abertas, depois de cada orgasmo. Essa imagem me lembra de imediato o sexo de Juana; estreito, acolhedor, peludo. Tentarei não me desviar demais.

Assim que Juana compreendeu que nunca mais seria digna aos olhos do Senhor (coisa que compreendeu logo), deixou crescer o cabelo, procurou um trabalho de ajudante em uma veterinária e dedicou todo o seu tempo livre (todo, todo, todo) a fornicar com homens de qualquer idade, raça e condição. O único requisito, segundo contava Juana, era que não se apaixonassem por ela. E que prometessem isso desde o primeiro dia. Eu já fui casada, dizia-lhes (dizia-nos), com o maior Ele de todo o universo. Vivi absolutamente comprometida com o meu Senhor dos 18 aos 39 anos. E, como é impossível aspirar entregas mais elevadas, eu agora que sexo, sexo, sexo. Embora saiba que eu vá me condenar por causa disso.

Qualquer um que não tenha se deitado com Juana (e reconheçamos que essa possibilidade começa a ser remota em Madri e arredores) poderia debochar dessa sua frase: “Sei que vou me condenar por causa disso”. E talvez pensasse que se tratava de uma desculpa beata, para não dizer barata. De um mero subterfúgio para redimir seu comportamento pecaminoso. Mas bastava uma só noite com ela, para não dizer um breve coito, para compreender até que ponto a afirmação de Juana era severa e transparente.

A vida sexual de Juana era muito mais do que isso. Que vida, refiro-me. E, se não tivesse sido tão arrasadora e entusiasta, estaria, inclusive, tentado a dizer que se tratava do contrário: de uma morte sexual. Com suas correspondentes, e absolutamente inevitáveis, ressurreições carnais. Posso imaginar os equívocos que esta declaração despertará nas mentes mais perversas. Êxtases espasmódicos. Sucções misteriosas. Grosseiras acrobacias. Inverossímeis durações. Por Deus, por Deus, por Deus. Nada mais distante: com Juana era diferente. Mais simples. Sem técnicas orientais. Sem posições incômodas.

O caso Juana era uma coisa que a nossa civilização quase perdeu: pura lascívia. Com suas tentações irrefreáveis, seus remorsos sinceros e suas reincidências fatais. O incrível era que esses ciclos, que para as pessoas comuns podem levar dias, meses, anos, Juana os resumia vertiginosamente em só uns quinze minutos: os mesmos que durasse o sexo. Tentando uma aproximação científica, digamos que as mulheres experimentam as fases de excitação, planície, orgasmo e resolução. Juana, em compensação, padecia de rubor, alheamento, arrependimento e recaída. Sem cessar. Com a naturalidade de uma tempestade de verão.

Desde a primeira noite que passei com Juana em sua casa, quicando no sofá da salinha de estar, assisti boquiaberto à liturgia que se repetiria sempre. Ela me despia com brutalidade, me mordia com ânsia, me rechaçava brevemente, arrancava sua calcinha e me atraía para dentro dela. Então dava início à parte mais espantosa, a que terminava de capturar meus sentidos e que, de alguma forma, acabou por me condenar: Juana falava. Falava, uivava, rezava, suplicava, chorava, ria, cantava, agradecia. Para fazê-la ingressar naquele transe não era preciso façanhas físicas de nenhum tempo. Bastava deixar-se levar. Aceita-la. A recompensa era, sem exceção, esmagadora. Entre as centenas de obscenidades bíblicas que Juana costumava proferir durante o ato, me fascinavam sobretudo as mais simples: “Você me força a pecar, seu maldito”, “Pelo teu corpo já não tenho perdão”, “Você está me levando para o inferno”. Algum cético poderá objetar que eram meras exclamações de doutrina. Mas a mim, sendo honesto, essas coisas me conquistavam. Sou um homem comum. Não costumo despertar grandes paixões. E nuca, jamais, entenda-me, tinha levado alguém até o inferno.

A minha tragédia era esta: como fornicar depois de Juana? Valia a pena sair das voluptuosas chamas do averno para se recostar na medíocre maciez de um colchão qualquer? Com Juana, cada embate era um acontecimento. Um prazer deplorável. Com as demais mulheres, o sexo era só sexo. Mecânica anatômica. Desejo satisfeito. Desde que conheci Juana todas as minhas amantes ocasionais, e muito especialmente as progressistas, me pareciam mornas, previsíveis, de uma normalidade desesperadora. O que nós fazíamos juntos não era terrível nem atroz nem imperdoável. Nenhum dos dois perdia seus princípios ao fazer o que fazíamos. Com o tempo fui passando da apatia à fobia e cheguei a detestar os gestos vazios que trocava com as minhas amantes. As pequenas contrações. Os gritinhos moderados. Os tímidos gemidos. Já não podia estar com alguém que não fosse ela.

A última noite que vi Juana, estava vestida como de costume: saia ampla e sapatos velhos. Sem maquiagem. Um pouco despenteada. E com a carne eriçada, trêmula, como à espera de um terremoto. Quando arrancou sua calcinha e contemplei de novo seu sexo escuro, não pude evitar beijá-la e sussurrar-lhe ao ouvido: estou apaixonado. Juana fechou as pernas imediatamente, se enrodilhou no sofá, levantou o queixo e disse: então vá embora. Disse isso tão séria que nem sequer tive forças para insistir. Além disso, eu é que tinha descumprido sua promessa. Vesti-me, envergonhado.

Enquanto atravessava a salinha, ouvi que Juana gritava para mim. Eu me virei com a esperança de que tivesse mudado de opinião. Eu a vi se aproximar, nua. Caminhava rápido. Notava-se que tinha os pés gelados. Me olhou fixo nos olhos com uma mistura de rancor e compaixão. Não se pode ir ao inferno por amor, me disse. Depois apagou a luz.

Ainda hoje, depois de tanto tempo, cada vez que penso em Juana meus joelhos se dobram e minha boca fica seca. Minha vida, claro, seguiu em frente. Não está de todo mal. Voltei a me deitar com outras mulheres. Eu não me apaixono, elas não enlouquecem. Nós nos vemos de vez em quando. Fingimos nos encontrar para jantar ou ir ao cinema. Brincamos com cortesia. Nós nos entediamos gratamente.

Às vezes me olhos no espelho, aproximo minha boca e me pergunto o que terá sido feito dos meus infernos. A resposta é simples: nada. Nunca tive um inferno próprio, como Juana. Meu único pecado nesta vida foi perdê-la.


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Um Inferno Próprio é um dos três contos do escritor argentino Andrés Neuman que integram a edição número 7 da Granta em português (ed. Objetiva, 372 págs.) dedicada a jovens escritores em língua espanhola.

Fonte:
NEUMAN, Andrés. Um Inferno Próprio. Revista PLAYBOY. São Paulo, N.433, jun/2011. p. 87-89.

Ilustrações:
Zé Otávio | Ilustrator (Imagens sem alteração nenhuma, não vi necessidade para tal)

quarta-feira, junho 15, 2011

O Rouxinol e a Rosa - Oscar Wilde

– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

– Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas.
– Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

– Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah... Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.

– Eis um verdadeiro apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

– Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

– Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

– É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

– Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

– Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.

– Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.

Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou.

Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

– Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

– Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

– Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

– Dize. Não tenho medo.

– Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

– A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.

– Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

– Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

– Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.

O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.

E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.

– Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.

Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.

A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

– Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.

Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.

– Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

– Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou o Estudante. – Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.

A moça franziu a testa.

– Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...

– És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

– Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda... – e a moça levantou-se e entrou em casa.

– Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.

Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...

Fonte:
Cultura Brasileira
Versão em português: Lázaro Curvêlo Chaves - julho de 2005
Imagem: Madicatt

segunda-feira, junho 06, 2011

Da necessidade do pensar - Friedrich Nietzsche

"Ainda vivo, ainda penso: ainda é necessário que eu viva, pois ainda necessito pensar. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum (Sou, portanto penso: penso, portanto sou).

Nos dias atuais, todos se permitem exprimir os seus mais elevados desejos e pensamentos: vou portanto, dizer eu também o que mais desejo e qual foi o primeiro pensamento que veio ao meu coração [...]; vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a existência que ainda terei!

Desejo aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas."

(NIETZSCHE, 1892).


Achei esse trecho interessante e, por consequência, passível de compartilhamento por ser um pensamento comum a dois grandes expoentes da filosofia: René Descartes e Friedrich Nietzsche. O primeiro eu tenho como base há algum tempo e o segundo tenho aprendido a cada minuto que travo daquelas "conversas" com ele.

Pois bem, ainda creio que, assim como o ato de andar (sobre duas patas) é o exercício físico mais indicado para os seres humanos (justamente por ser uma das características que os distingue dos demais animais), o ato de pensar é o mais indicado para a mente humana pois, como diria Descartes apud Nietzsche, o pensar é uma condição de existência: Cogito, ergo sum.


Fonte:
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Coleção obra-prima de cada autor. Martin Claret: São Paulo, 2003. p.142-43.

sexta-feira, maio 27, 2011

Da origem do termo "Parmegiana"

Outro dia em uma discussão à mesa, alguém relatou uma situação engraçada sobre o queijo (ou a falta dele) em um Filé à Parmegiana... Ora pois, de imediato, lembrei-me do livro Literatura e Gastronomia: um casamento perfeito, onde o autor, o curitibano Fabiano Dalla Bona, faz uma incrível miscelânia entre a literatura e cozinha italianas, um verdadeiro tratado gastronômico-literário contendo inúmeras receitas da cozinha siciliana referenciadas em diversas obras. Dentre elas, ele discorre sobre a origem do termo "parmegiana" em uma receita de parmigiana di melanzane (Berinjelas a parmegiana). A explicação para a origem do termo é a seguinte:

[...] Ao contrário do que se pensa, o nome parmigiana, não significa absolutamente berinjelas à moda da cidade de Parma ou berinjelas com queijo Parmigiano Reggiano, mas deriva de parmiciana, ou seja o conjunto de listras de madeira, sobrepostas, que formam uma persiana e que lembram a arrumação das fatias de berinjela no preparo do prato. Parece que o prato é uma herança da dominação árabe e grega na ilha, com grandes semelhanças com a moussaka grega e a tiani árabe.
... leia a receita completa

Referências:
DALLA BONA, Fabiano. Literatura e Gastronomia: um Casamento Perfeito. Italianova: 2005.
_____. Blog Cozinha, Literatura & outras Artes

terça-feira, maio 24, 2011

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir


"O Segundo Sexo é um clássico publicado por Simone de Beauvoir em 1949. São dois livros sobre a situação da mulher. O primeiro volume recebeu o subtítulo de “Fatos e Mitos”, e o segundo volume foi denominado “A experiência vivida”. Como outros clássicos feministas, encontra-se esgotado no Brasil."

Lembro dessa obra dos meus semestres iniciais na Faci, mais especificamente do 2º semestre, das aulas de Introdução às Ciências Socias e Políticas, ministradas pelo ilustre benemérito Cláudio Carvalho (Twitter | Facebook), não cheguei a apreciá-la por completo, apenas um trecho que, ao término, traduzia-se na máxima "Não se nasce mulher, torna-se", em alusão à forma pela qual Simone de Beauvoir percebeu a construção da identidade feminina e da feminilidade a partir de modelos e/ou estereótipos sociais. Ao que tudo indica, tal obra foi o ponto de partida de discussões acerca da condição da mulher em uma sociedade estritamente machista. Pois bem, abaixo estão os links para leitura e/ou download dos dois volumes: O Segundo Sexo vol.1 - Fatos e Mitos e O Segundo Sexo vol.2 - A Experiência vivida.

O Segundo Sexo

O Segundo Sexo Vol 2

segunda-feira, maio 16, 2011

Amsterdã Blues - Arnon Grunberg

Hoje ao adentrar a habitação da Gordinha (@denisegerusa) deparei-me com esse livro que, lembro eu, emprestei-o há tempos, mas que a mesma nunca se deu ao deleite de ler. Comprei esse livro na prateleira de promoções do Magazan (leia-se livros não best-sellers que ninguém quer ler), comprei-o por míseros R$ 4,90. Um preço muito bom pra um livro que se mostrou bastante interessante e peculiar.





"Absurda, sem-vergonha e divertida" são os adjetivos que descrevem com precisão a história da vida do personagem Arnon Grunberg, delineada pelo autor homônimo. Lançado em 1994, quando Grunberg tinha apenas 22 anos, o livro vendeu 70 mil cópias na Holanda, e agora (2003) chega ao Brasil traduzido direto do original.

Porque ele não está na escola? O que esse sujeito faz nos bares de hotéis e restaurantes caros? Por que é tão complicado não emprestar os ouvidos a esse cliente estranho, depois de você se sentar ao lado dele? O talento de Grunberg para a tragicomédia encontra terreno fértil nessas confissões cativantes sobre sua carreira escolar prematura abortada, sobre seu pai doente que insulta a enfermeira (e que se alivia sobre o carpete), sobre sua mãe que era a mais bonita de todas e que agora entorna uma panela de macarrão sobre o marido (que fica imóvel), sobre a garota Rosie (seu primeiro amor) e a lista de prostitutas que ele visitará mais tarde.

É difícil ter alguma consideração para com a sua atitude. A partir da metade da história, passamos a querer que Arnon se emende e tenha algum tipo de alegria e que siga adianta ocm a sua vida. Em vez disso, ele permanece ensimesmado do começo ao fim, criando um retrato estático da Amsterdã anônima - sem apelar ao Rijksmuseum, às tulipas ou ao charme de seus canais.


Arnon Grunberg nasceu em Amsterdã em 1971. Depois de ser expulso da escola aos 17 anos, abriu uma editora de um só funcionário e foi também garçom e ator. Certo dia, viu-se contando suas histórias de sobrevivência nas ruas de Amsterdã para um editor holandês. O resultado foi Amsterdã Blues, traduzido para diversas línguas. Atualmente mora em Nova York e colabora para jornais holandeses e norte-americanos.

quinta-feira, maio 05, 2011

Da doutrina da finalidade da vida - Friedrich Nietzsche

Nietzsche não é um autor do qual eu seja particularmente partidário, digamos assim, gosto muito de seus escritos e, reconheço, é um autor de inefáveis obras e conceitos, principalmente acerca da existências humana e da relação com as suas divindades. Máximas como "Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!" e "O homem deve ser superado!", exprimem bem o que digo.

Pois bem, relendo A Gaia Ciência, senti-me quase que no dever de compartilhar o trecho a seguir com os poucos leitores do meu inestimável blog.

Nesse breve trecho inicial já se percebe o escopo do fim dos fundamentos da existência de uma divindade, Deus, no caso, como justificativa e fonte de valores para a humanidade, tanto individual quanto coletivamente. Também há a desvaloração de conceitos como bem e mal, certo e errado, e uma breve referência a um tempo em que, talvez, todos alcancem um status de desprendimento que ele chama de "suprema libertação", "suprema irresponsabilidade".

Pois bem, quanto ao trecho, ei-lo...


"Mesmo considerando os homens com bondade ou malevolência, encontro-os sempre, a todos e a cada um em particular, ocupados em uma única tarefa: tornar-se úteis à conservação da espécie. E não por um sentimento de amor a essa espécie, mas simplesmente porque nada neles é mais antigo, mais poderoso, mais inexorável e mais invencível do que esse instinto... porque esse instinto é propriamente a essência da espécie e rebanho que somos. Se chegamos assaz rapidamente, com a miopia ordinária, a separar a cinco passos de distância, os nossos semelhantes em úteis e em prejudiciais, bons e maus, no nosso balanço final refletimos sobre o conjunto e acabamos por desconfiar destas depurações, destas distinções, renunciando a elas. O homem mais prejudicial pode ser ainda, no fim das contas, o mais útil à conservação da espécie, pois sustenta em si mesmo, ou nos outros pela sua influência, instintos sem os quais a humanidade estaria há muito tempo definhada e corrompida. O ódio, o prazer com o mal alheio, a sede de tomar e de dominar e, de uma forma geral, tudo aquilo a que se dá o nome de mau, não passam de um dos elementos da assombrosa economia da conservação da espécie; economia dispendiosa, certamente, pródiga e, no geral, altamente insensata, mas que, de modo comprovado, conservou a nossa raça até agora.

Não sei mais, meu caro próximo, e congênere, se ainda podes viver em detrimento da nossa espécie, viver de forma "irracional" e "má"; aquilo que poderia prejudicar a espécie, talvez tenha morrido há milhares de anos; é talvez agora uma dessas coisas perante as quais nem o próprio Deus pode conceber. Siga as tuas melhores ou piores inclinações e, antes de mais nada, encaminha-te para a tua perdição; em ambos os casos favorecerás, provavelmente, de uma maneira ou de outra, o progresso da humanidade, serás sempre em qualquer ponto o seu benfeitor e terás direito aos seus apologistas... como também aos seus detratores! Mas nunca encontrarás quem possa troçar de ti, indivíduo, inteiramente, mesmo naquilo que tens de melhor, aquele que será capaz de te representar com força suficiente para aproximar da verdade, a tua incomensurável pobreza de rã e de mosca!

Para rirmos de nós mesmos, como seria necessário, como o faria a verdade total, os melhores não tiveram até agora suficiente senso pelo verdadeiro, os mais dotados, gênio bastante. Talvez haja ainda um futuro para o riso! Que acontecerá quando a máxima: "a espécie é tudo, o indivíduo é nada" tiver se incorporado à humanidade e quando todos tiverem livre acesso a esta suprema libertação, a esta suprema irresponsabilidade? Talvez então o riso se tenha aliado à sabedoria, talvez haja aí então uma "gaia ciência".

Fontes:
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Coleção Obra-prima de Cada Autor. São Paulo: Martin Claret, 2003.
Imagem (carticatura) encontrada em diversos sites, mas de autoria desconhecida, não obstante ao fato de estar assinada.
Detalhe do título da capa original da segunda edição de A Gaia Ciência (Die fröhliche Wissenschaft), de 1887 (Wikipédia)

terça-feira, abril 19, 2011

Da função social da Literatura - Simone de Beauvoir

Confuso e perdido em meio à várias abas do Mozilla Firefox abertas com livros e mais livros do Google Books, alguns artigos científicos e uma ou outra rede social, chamou-me atenção uma capa vermelha na guia “livros relacionados” enquanto lia “A Arte de Pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais” de Mirian Goldenberg. Ora pois, já que meu foco havia se perdido, larguei as demais atividades e abri o livro em outra aba.

Intitulado “Infiel: Notas de uma antropóloga”, também de autoria de Mirian Goldenberg, procurei por algum prefácio/preâmbulo/introdução que me mostrasse o teor do livro. Encontrei um trecho incrível de Simone de Beauvoir que, a meu ver descreve, com uma acurácia inimaginável, a funação social da literatura. Conhecedor de pouquíssimo conteúdo de Simone de Beauvoir, em verdade, meu arcabouço literário e biográfico sobre ela restringi-se ao texto “O Segundo Sexo”, que contém a sagaz máxima “Não se nasce mulher: torna-se”, e à sua relação matrimonial com o existencialista Jean-Paul Sartre que, segundo contam as más línguas, era extremamente liberal.


Pois bem, como já disse, achei o trecho incrível e me identifiquei bastante com ele e com a atual relação que tenho com o ato de escrever. Abaixo, transcrevo-o, tal qual me foi apresentado:

“Nos períodos difíceis de minha vida, rabiscar frases - ainda que nunca venham a ser lidas por ninguém - me traz o mesmo reconforto que a reza para quem tem fé: através da linguagem ultrapasso meu caso particular, comungo com toda a humanidade.

Toda dor dilacera; mas o que mas o que a torna intolerável é que quem a sente tem a impressão de estar separado do resto do mundo; partilhada, ela ao menos deixa de ser um exílio. Não é por deleite, por exibicionismo, por provocação que muitas vezes os escritores relatam experiências terríveis ou desoladoras: por intermédio das palavras, eles as universalizam e permitem que os leitores conheçam, em seus sofrimentos individuais, os consolos da fraternidade. Em minha opinião, essa é uma das funções essenciais da literatura, e o que a torna insubstituível: superar a solidão que é comum a todos nós e que, no entanto, faz com que nos tornemos estranhos uns aos outros.”


Simone de Beauvoir está, definitivamente, na minha lista de leituras futuras!

segunda-feira, abril 11, 2011

Fábulas das 1001 Noites - Bill Willingham

Essa semana, em função de um trágico acidente, relembrei-me desta incrível obra.


Quando o mundo das fábulas europeias é atacado e subjugado por um misterioso inimigo conhecido apenas como "Adversário", Branca de Neve parte do seu refúgio para o mundo das fábulas árabes no intuito de alertá-los sobre o iminente perigo. Logo ao chegar, Branca de Neve, na tentativa de falar com o Sultão, é mantida em cárcere privado pelo Grão-Vizir, depois de algum tempo ela é levada à presença do Sultão.

O que ela não sabe é que, na verdade, não está sendo levada como convidada, mas como noiva. E o que ela sabe manos ainda é que o Sultão tem um hábito deveras estranho: desposa virgens à noite e manda matá-las pela manhã. Para conseguir manter a cabeça sobre o pescoço, Branca de Neve, que acabara de ser 'presenteada' com a história de como o Sultão adotou esse peculiar hábito, resolve retribuir narrando-lhe parte de sua própria história. Aqui começam as 1001 Noites de Fábulas, fábulas estas bastante conhecidas de todos, mas contados de forma bem diferente.

Download aqui

Existe também uma série da Vertigo, intitulada "Fábulas", que narra a vida de algumas fábulas como Branca de Neve, Rosa Vermelha, Príncipe Encantando, Lobo Mau, João do Pé-de-Feijão, Garoto Azul, Príncipe Ambrósio entre outros, após a expulsão pelo Adversário, exilados em uma cidade clandestina chamada "Cidade das Fábulas", que fica próximo à Nova York.

Mas este é assunto pra outro tópico, pra quando eu ler todas elas...

quinta-feira, março 31, 2011

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

Escrito em 1932, Admirável Mundo Novo é uma ficção muito... digamos... interessante, pra não dizer perturbadora. O livro mostra um futuro distópico, uma sociedade totalmente desprovida de qualquer ética ou valores religiosos e espirituais, tais como família, fidelidade, matrimônio, deus, etc... Um mundo regido pelos ensinamentos do "Nosso Ford" (do trocadilho inglês: Our Ford / Our Lord, Nosso Ford / Nosso Senhor).


Essa sociedade é vista como perfeita pelos seus idealizadores, uma sociedade onde não existe infelicidade, dúvidas, medos ou insegurança. É uma sociedade organizada por castas condicionadas geneticamente (alfa, beta, gama, delta e ípsilon), cada uma com funções sociais, direitos e deveres bem definidos numa escala de importância/relevância social.

Todas as pessoas são fabricadas em linhas de montagem pelo Estado (influência de Henry Ford). Além disso, o comportamento de cada um também é condicionado desde a infância, assim como a educação sexual, o que, para nós, seria visto como algo mais próximo à promiscuidade. Tudo isso para que todos vivam na mais completa harmonia uns com os outros e com as leis definidas. Todo e qualquer "desvio" dessa ordem é logo corrigido com o uso do SOMA, a droga perfeita, fabricada e distribuída pelo Estado.

Pois bem, tudo muito bom, tudo muito bem, até que alguém, Bernard Marx, um pouco descontente com essa realidade, em uma viagem, acaba econtrando um tal Sr. Selvagem, vivendo em uma reserva, um lugar onde algumas poucas pessoas que não foram assimiladas por essa distopia vivem de acordo com os "velhos costumes".

O grande ponto do livro é a perplexidade / assombro / assimilação (ou não) do Sr. Selvagem com o mundo que encontra, sim, pois ele é levado a esse Admirável Mundo Novo, os conflitos de valores pelos quais ele se depara, as paixões que ele alimenta, mas que vão de encontro às leis definidas pela sociedade e por aí vai.
Lembrei-me de uma passagem de Dostoiévski que leva à seguinte conclusão: "Não existindo Deus, tudo seria permitido?". A questão que esse livro levanta é justamente essa, "O cientificamente possível é eticamente viável?".

Fica a discussão. E também a dica e a recomendação da leitura.


Imagem: Fábio Zanetti

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

O ladrão que estudava Espinosa - Lawrence Block

Lawrence Block foi o primeiro a receber um Nero Wolfe, prêmio instituído em 1979 para homenagear autores de romances policiais à altura do mestre Rex Stout, o que significa, entre outras coisas, capacidade de criar tramas que são verdadeiros quebra-cabeças e deixar o leitor feliz e satisfeito por não conseguir resolvê-los. Afinal, é para isso que existe o detetive, o herói da história. No caso, ele se chama Bernard Rhodenbarr e tem uma particularidade única: é obrigado a investigar crimes para provar à polícia que não foi ele quem os cometeu.

Livreiro em Nova York, Bernie cultua outras paixões, mais lucrativas - como abrir fechaduras sem o uso de chaves e pilhar a propriedade alheia. Desta vez, o que ele faz é se apropriar de uma moeda de cinco centavos - mas um V-Nickel, raridade estimada em meio milhão de dólares. Em seguida ao roubo, entretanto, ocorrem dois assassinatos relacionados ao sumiço da peça. De quem a polícia desconfia?

Enquanto administra os conflitos entre Carolyn, sua cúmplice, e Denise, sua amante, Rhodenbarr põe em prática um plano para se safar. Terá de usar todo o seu talento com fechaduras e de buscar nos escritos do filósofo Espinosa as chaves para desvendar o caso, isto é: para continuar apenas com fama de ladrão.

Fonte: Companhia das Letras

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Nietzsche, Zaratustra, o Übermensch e a mote de Deus

Assim Falou Zaratustra, - Um livro para todos e para ninguém (igual ao blog), figura entre as principais obras do alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche. Dividida em quatro parte, foi curiosamente escrita num espaço de quatro anos, sendo que cada volume levou apenas dez dias para ser escrito, teve diversos entraves para ser publicada, sendo que a quarta e última parte foi toda custeada por Nietzsche.

É uma obra escrita de forma bíblica e poética como uma forma clara de satirizar a Bíblia/Novo Testamento, os valores cristãos, a moral da época, o Estado, a Academia, ou seja, praticamente tudo que o cercava. O livro narra, à imagem e semelhança dos evangelhos cristãos, a vida e a obra de Zaratustra, um sábio persa que vaga pelo mundo "evangelizando", semeando os conhecimentos adquiridos durante um longo tempo de meditação.

O Livro é recheado de máximas, aforismos e parábolas, dentre as quais consta a conhecidíssima e amplamente difundida por ateus e agnósticos: "Gott ist tot / Deus está morto".

Logo no preâmbulo do livro, quando Zaratustra sai pela primeira vez de sua caverna, depois de dez anos de meditação, ele encontra um ancião que com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louva a Deus. Ao despedir-se, Zaratustra murmura de si para si:
“Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu bosque que Deus já morreu?”
Dando a entender claramente que Deus morreu antes do ponto que se encontram, uma clara referência à Gaia Ciência:
“Para onde foi Deus? [...] já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! [...] Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!"

Outro conceito importante apresentado no livro, é o Übermensch, ou Super-homem (tradução que eu, particularmente, não gosto), ele seria o estágio final da evolução humana. Nietzsche, usando a figura de Zaratustra, nos diz que o ser humano é apenas um meio termo entre os macacos e o Übermensch, e que tal estágio só poderia ser alcançado através da transvaloração de todos os valores individuais, da constante superação de si mesmo, da sede de poder/vontade de potência, da destruição de conceitos velhos e a criação de novos. Segundo ele:
"O homem é corda distendida entre o animal e o super-homem: uma corda sobre um abismo; travessia perigosa, temerário caminhar, perigosos olhar para trás, perigoso tremer e parar."
Em verdade, é um livro realmente incrível, caso tivesse que aqui escrever cada passagem interessante, teria de escrever o livro praticamente na íntegra. Altamente recomendado.

Download em PDF
Mais tirinhas sobre Nietzsche

Fontes:
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Coleção Obra-prima de Cada Autor. São Paulo: Martin Claret, 1999.
_____. Gaia Ciência. Coleção Obra-prima de Cada Autor. São Paulo: Martin Claret, 2003.
Tirinha de autoria de Carlos Ruas do blog Um Sábado Qualquer

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Mario Vargas Llosa - Travessuras da Menina Má

Na busca por algo interessante pra ler, lembrei do peruano Mario Vargas Llosa, nobel de literatura de 2010 e, procurando entre resenhas e opiniões de suas obras, meio que engracei-me de cara com "Travessuras da Menina Má".

Sinopse
O peruano Ricardo vê realizado, ainda jovem, o sonho que sempre alimentou - o de viver em Paris. O reencontro com um amor da adolescência o trará de volta à realidade. Lily - inconformista, aventureira e pragmática - o arrastará para fora do pequeno mundo de suas ambições. Ricardo e Lily - ela sempre mudando de nome e de marido - se reencontram várias vezes ao longo da vida, em diferentes cidades do mundo que foram cenário de momentos emblemáticos da História contemporânea. Na Paris revolucionária dos anos 60; na Londres das drogas, da cultura hippie e do amor livre dos anos 70; na Tóquio dos grandes mafiosos dos anos 80; e na Madri em transição política dos anos 90. Assim, ao mesmo tempo em que conta a história de um amor arrebatador, "Travessuras da menina má" traça um quadro vigoroso das transformações sociais européias e convulsões políticas da América Latina. Muitas das experiências de vida de Vargas Llosa aparecem aqui, através de seus personagens - os tempos de penúria em Paris, seu trabalho como tradutor, sua simpatia pela revolução cubana, e a ligação permanente com seu país de origem, o Peru. Criando uma tensão entre o cômico e o trágico, numa narrativa ágil, vigorosa e terna, que conduz o leitor nesta dança de encontros e desencontros, Mario Vargas Llosa joga com a realidade e a ficção para contar uma história em que o amor se mostra indefinível, senhor de mil faces, como a menina deliciosa e má.

Download do livro (PDF)