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terça-feira, janeiro 08, 2013

Fuga da caverna

A caverna era quente, levemente escura e úmida. Das paredes brotavam raízes e um água fria (proveniente de um temporal recente, talvez?) que se acumulava por todo o chão. O ar era abafado e com forte cheiro de terra e raízes, um cheiro tão forte que era quase palpável. Em meio a isso, uma baça luz banhava do chão enlameado.

O garoto caminhava calmamente, guardando suas energias para combater qualquer eventual inimigo que estivesse à espera do lado de fora. Levava um machado pequeno preso às costas e uma espada longa na mão direita.

Durante todo o trajeto, o gotejar das estalactites, os dentes da caverna, eram constantes e, de certa forma, aconchegantes. O uivo das eventuais correntes de ar, vindas de algum lugar ignorado. A respiração pesada e quente do seu companheiro de jornada alguns passos atrás. Tudo isso fazia com que ele se mantivesse consciente de si mesmo e dos perigos a frente.

Caminharam por horas sem parar. A saída já era visível ao longe e, dessa forma, a tensão na estranha dupla aumentava a cada passo. Como já imaginavam, eram aguardados. O primeiro dos inimigos, um sentinela, andava impaciente de um lado a outro, com a espada ainda embainhada. O garoto se aproximou silenciosamente da saída, o que não impediu que fosse visto.

Quando o alarme foi dado, ele correu os últimos metros e arremessou o machado com precisão no sentinela que corria para enfrentá-lo. Saiu da caverna e viu-se cercado por todos os lados, avaliou os inimigos, sem demonstrar medo algum. Abaixou-se, pondo a espada à frente e entoando, de forma quase inaudível, um mantra muito antigo. Durante algum tempo os atacantes ficaram sem entender aquilo. Até que, por uma fração ínfima de tempo, os olhos do garoto brilharam vermelhos e ele caiu de lado, desmaiado.

Curiosos, os 20 ou 30 inimigos se aproximaram cautelosamente.

Alguns deles nem chegaram a ver o dragão emergir da caverna, voar por cima do garoto inconsciente e começar o massacre, mordendo, arrancando cabeças e braços, cortando com as garras e com a cauda. Rápido, preciso e extremamente letal. Em instantes todos estavam mortos. O dragão parou, andou em volta do garoto, aproximou o focinho do rosto dele, tocou-lhe a testa e ele acordou...

- Eu disse que conseguiríamos!
- Sim. Conseguimos... (respondeu o dragão)


sexta-feira, dezembro 07, 2012

Rosas, cerejas, magentas e madressilvas


Foram os quatro meses mais intensos daqueles 30 e poucos anos de vida de ambos. Marcaram o casamento pro início de abril, uma cerimônia simples ao ar livre, com apenas três convidados (sendo dois deles, os padrinhos), em um Parque na cidade onde viviam.

Era uma manhã idílica. A luz do sol fazia com que as cerejeiras em flor refletissem uma miríade de tons cor-de-rosa, cerejas, magentas e, principalmente, madressilvas... O vento, carregado com o odor doce de flores, misturava-se ao leve acre de terra e grama.

Ao pé de uma imensa cerejeira, o sacerdote, de costas para a árvore, celebrava a união. O casal, ajoelhado dois passos a frente, trocava imperceptíveis carícias com as mãos dadas. Os padrinhos margeavam o casal, sentados de pernas cruzadas no gramado, sorrindo da magia daquele momento, enquanto o último convidado assistia a tudo de pé, atrás de todos eles, com um semblante sério.

O vestido dela era simples, mas do mesmo tom dominante das pétalas que caíam suavemente por todo o Parque, o mesmo tom da gravata que ele usava. Não era possível descrever o olhar que eles trocavam enquanto o sacerdote oficiava a cerimônia. Um olhar que prendia, abraçava, um olhar que de dentro, não apenas dos olhos, mas da própria alma de ambos que, nesse momento, parecia una. E, a um sinal do sacerdote, ambos trocaram as alianças e votos, sem mover em nada aquele olhar inebriante.

Foi como se a força do olhar os aproximasse cada vez mais até que, de olhos fechados, tocaram os lábios e um beijo que poderia ter durado toda uma eternidade...

... Mas que acabou interrompido assim que o convidado que estava em pé desmaiou.





segunda-feira, outubro 22, 2012

Olhares urbanos

Sob um sol escaldante eles trocaram um demorado olhar.

Poderiam ter trocado mais... Trocado algumas palavras ou um sorriso. O número de telefone, algumas mensagens engraçadas, e mais risos. Palavras, momentos, beijos, carícias. Poderiam trocar um dia, uma semana, um ano, uma vida, as suas vidas, uma pela outra. Poderiam ter trocado alianças e seus status no facebook. Trocado todos os sentimentos do mundo. Trocado tudo para ter um ao outro...

Mas, naquele sol escaldante, trocaram apenas um demorado olhar...

Foto: MjYj / Flickr

terça-feira, outubro 16, 2012

Rotineiricidades #8 - Efeito borboleta

Trânsito caótico. Manhã quente. Buzinas. Carros, ônibus, motos, pedestres. Stress. Stress. Stress...

Preso, em meio a tudo isso, dentro do ônibus, tento me distrair e evitar as pessoas se acotovelando. Olho pros lados e não vejo um só rosto amigável ou receptivo, nos carros lá fora, a mesma coisa, fecho os olhos e respiro fundo, tentando me abstrair. Nada.

Abro os olhos e é quando, do nada, surge aquela borboleta, de asas negras e azuis, voando em torno de um motociclista. Ela passa por ele e chega perto da janela que eu estava, como que pra me desejar um bom dia. Devolvo a gentileza com um sorriso e fico a observar seu voo. Ela vai e vem, num padrão totalmente aleatório (pelo menos pra mim), rodeando motos, passando por cima dos carros, retrovisores, janelas, um eventual galho de árvore. Subindo e descendo, indo e vindo, voando, voando, voando, aqui e ali. 

Aquele balé aéreo faz com que o tempo pare por alguns instantes. Deleito-me deveras com a cena. Até que algumas pessoas (do ônibus) começam a estranhar aquele meu sorriso bobo, parecido com um soluço, enquanto todo aquele caos segue em frente e, eu, com toda a calma do mundo, sorrindo. Percebo olhares curiosos, mas não consigo tirar os olhos daquele borrão azul e negro.

E foi assim que uma singela beleza alada provou a veracidade do efeito borboleta da teoria do caos: o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um terremoto na China, ou um sorriso do outro lado da rua...

Carpe diem. Porque a vida é curta.




segunda-feira, setembro 10, 2012

Incesto

Há horas eu a estava observando. Sentado em um banco junto ao balcão, estava (quase) completamente bêbado. Ela devia ter algo em torno de 1,65 de altura, com cabelos loiros e cacheados que esvoaçavam de uma forma deveras sensual quando inclinava a cabeça sorrindo. Na penumbra do lugar onde estávamos não pude ter certeza, mas podia jurar que ela tinha olhos claros, verdes, pra ser mais preciso. Dir-se-ia que ela era gordinha, mas isso não importava, a silhueta levemente acima do padrão midiático de curvas e formas só a deixava mais atraente pra mim. Todos os seus movimentos me cativavam, tudo nela me excitava, boca, olhos, cabelo, seios, pernas, tudo. Não conseguia ver nenhuma outra pessoa, só ela. Só ela.

Entre uma cerveja e outra, perdi a noção do tempo que fiquei a observar aquela beldade. Até que, em dado momento, nosso olhares se cruzaram. Ela me olhou e sorriu, um riso tão sensual quanto infantil. Um arco de beleza e sensualidade magistralmente pintado num rosto claro e límpido, tal e qual uma estival alvorada em uma praia deserta.

Pois bem. De longe, ela me olhou, sorriu, disse algo às pessoas que estavam em volta e veio em minha direção. Quedei-me pasmo vendo seu elegante caminhar e fui assaltado por um nervosismo que me deixou sem voz no momento em que ela estacou em minha frente. Com as mão na cintura e uma postura autoritária ela me deitou um olhar cínico e disse:

- Vem mano, a mamãe disse que não era pra nos demorarmos...

Droga! Era por isso que ela me parecia tão familiar.



terça-feira, setembro 04, 2012

A Casa na Praia

Pelo que me disseram, ninguém sabe quem construiu aquela casa.

Ela tinha um aspecto diferente, uma arquitetura intrigante, um pé direito muito alto e colunas rebuscadas, trabalhadas com o estilo das casas antigas, mas também tinha paredes com ângulos arrojados e águas de telhado com inclinações que não condiziam com aquele estilo, era antiga e moderna e, acima de tudo, velha.

Pois bem, a casa em si não é a questão.

Era uma casa abandonada e diziam, por toda a praia, que era habitada por demônios e fantasmas. Os moradores mais antigos da praia diziam que, em um dia de chuva, um anjo dos novos deuses passou a visitá-la. A princípio poucas vezes, mas com o passar do tempo com mais frequência. Depois disso, em pouco tempo, todos demônios e fantasmas se enfraqueceram ou foram embora.

Todos menos um.

Esse último habitante, um fantasma, foi, finalmente, deposto pelo anjo, que passou a habitar sozinho aquela estranha casa. Mas não à toa a casa era abandonada: era uma casa difícil de ser habitada, era como se ela reagisse aos habitantes pacíficos, como se não quisesse a paz. A casa lutou e, por fim, transformou também o anjo em um fantasma.


sexta-feira, junho 08, 2012

Batalhas interiores - Palgon

Ele chegou ao hades em meio aquele lusco-fusco de fim de tarde. Fazia um calor agradável.

Ao escurecer, as nuvens estavam espessas, tão espessas que ele pode sentar-se, de pernas cruzadas, sobre um amontoado delas, eram stratocumulus, as melhores pra os que são dados à meditação em nuvens. Ele era um desses atípicos. A noite veio e trouxe junto um frio glacial. Seu corpo desnudo era constantemente açoitado por rajadas de um vento gelado e sibilante. A lua estava de uma beleza assombrosa e ele concentrou-se nas sombras das nuvens projetadas na superfície, as mais diversas formas moviam-se pelo solo, mesclando-se, desmanchando-se, inconstantes sempre, como os seus pensamentos volitantes. Geômetras, fractais, espirais, todo tipo de forma, milhares de mundos e possibilidades iam e vinham, tal e qual e tantos quantos as sombras das nuvens.

E assim as horas se foram.


De repente, uma dificuldade em concentrar-se no exercício causou-lhe um desconforto, a princípio inóxio, mas que começou a evoluir quando os faunos anunciaram a chegada da hora do búfalo. Por essa hora a lua já havia abandonado o seu manto dourado e (re)vestia-se de um branco marmóreo o que tornava o contraste entre as sombras e a claridade mais acentuado, quase vivo. Quando as nuvem e, consequentemente, suas sombras cobriram o firmamento o desconforto mostrou sua verdadeira forma, saiu de seu corpo e sentou-se defronte. Ao sentar-se, de igual forma (pernas cruzadas e postura ereta), sob uma lacuna de luminosidade deixada por uma brecha nas nuvens, pode vê-lo nitidamente: era alto, muito alto, magro e branco, com olhos e boca finos, cabelos esvoaçantes e seu corpo refletia a etérea luz do luar.

Ambos permaneceram de cabeça baixa, não se miravam diretamente.Quando outro fauno soou o sinal referente à hora do tigre, o demônio olhou-o de forma solene e apresentou-se:
- Os vivos chamam-me de Palgon... E vós, como sois chamado por eles?
- Vieste de minhas entranhas, sei que estiveste um bom tempo a andar comigo, não preciso dizer-te meu nome. Sabe-o muito bem.

Fez-se novamente silêncio enquanto eles se encaravam e, cada vez mais, a angústia crescia-lhe no estômago e subia-lhe. Peito, garganta, boca e olhos. Tremia febrilmente sem saber se essa angústia, que agora lhe tomava conta, emanava de Palgon ou de si próprio. Seus olhos, até então apenas marejados, irromperam em lágrimas e um gritou que acordaria até o próprio deus, brotou-lhe da garganta. Sentiu-se ligeiramente melhor, parece que agora tinha armas contra aquela batalha silenciosa e, não obstante ao fato de estar sendo derrotado, era bem melhor lutar que entregar-se passivamente. Entregar-se-ia ao demônio da solidão mas não sem luta.

As lágrimas continuaram a brotar, vindas do seu próprio desespero, alimentadas por ele, os gritos ficaram mais fracos e dados a intervalos cada vez maiores de tempo. A nuvem, que servia-lhes de tatame e, ao mesmo tempo, campo de batalha, dissolvia-se ao entrar em contato das lágrimas e isso o deixou apavorado. Em meio a tudo isso, Palgon mantinha um sorriso no rosto e arredava um mecha de cabelo da frente dos olhos.

Já não podia mais encarar Palgon de frente. As dores abdominais fizeram com que se curvasse, chegando ao ponto de tocar a testa nas pernas cruzadas. E chorava, chorava como uma criança perdida, uma cria abandonada, um órfão. As lágrimas continuavam a dissolver a nuvem e ele não conseguia se concentrar para manter a nuvem sólida o bastante para permanecer em segurança. Sabia que não resistiria à queda. Palgon, por outro lado, parecia que flutuava a milímetros de distância da nuvem e, mesmo que caísse, provavelmente não se machucaria.

Toda a luta parecia em vão, malhava em ferro frio. Estava cada vez mais fraco e esgotado. Passava da metade da hora do tigre e ele sabia que a luta findaria junto com essa hora. Temia o seu desfecho. Quem venceria? Palgon era a escolha óbvia, estava mais forte e aparentemente preparou-se para tal embate.

Ele passou a apenas se defender, mesmo sem saber como. Quanto mais era fustigado pelas investidas imóveis e silenciosas de Palgon, mais tremia. O vento, as lágrimas e Palgon, tudo fazia com que sua pele gelasse. Tremia pra se aquecer, abandonou a postura meditativa e pôs-se em posição fetal. Assim esperou o fim, o derradeiro ataque do demônio da solidão.

Nesse momento, no fim da hora do tigre, ao abandonar por completo as esperanças, sentiu o frio amainar. Continuava vivo. Piscou várias vezes. Não acreditava na cálida sensação que agora lhe nascia. Desvencilhou-se do nó que dera em seu próprio corpo. Sentiu o calor do sol, dos seus primeiros raios. Levantou-se ainda em tempo de ver Palgon abandonar o sorriso e evaporar junto com a luz do dia.

E amanheceu... Sempre amanhece.


sábado, maio 19, 2012

Um grande berço


Por essa época eu era dado à meditação e, como dispunha de bastante tempo livre, dispendia incontáveis horas nesse deleite. Sentado, costas eretas, pernas cruzadas. Sentava na areia, bem perto da linha d'água da Praia do Atalaia, sempre virado de frente pro sul. Gostava de ter a maré às costas, era como se soubesse que nada me distrairia daquele lado, apenas o marulho com aquele ritmo cadenciado. Dessa forma eu tentava me abstrair e me largar às meditações.

Pois bem! Estava eu a meditar naquela manhã simplesmente linda. Céu de Brigadeiro. O vento, sempre forte, batia-me à esquerda e os raios do sol vinham da mesma direção. A praia estava praticamente deserta, fora de temporada. Já estava quase mergulhado naquele mundo particular, dentro da minha cabeça quando, meio que do nada, o barulho de um casal de crianças me trouxe de volta. Distavam cerca cem metros de mim e caminhavam com a alegria de crianças que, ao invés de ir à aula, foram "obrigadas" a pegar uma praia. Daí em diante, pus-me a observá-los e vi uma cena que, ainda hoje, lembro com uma clareza absurda.


As crianças se pareciam bastante, o garoto parecia ter dois ou três anos a mais que a garota. Brincavam distraidamente num pequeno lago, desses que se formam quando a maré começa a secar. Fiquei a observar o ir e vir deles durante um bom tempo, corriam de um lado a outro, brincavam em diversos lagos, corriam até o mar e voltavam e, nesse ponto, pude vê-los mais de perto. Olharam-me de relance, em momentos distintos: o garoto sorria com os lábios, mas deixava passar uma tristeza muito grande no olhar; ela era quase o oposto, se é que posso assim dizer, mantinha os lábios numa expressão retilínea, sem demonstrar emoção alguma, mas emanava um calor do olhar que parecia querer fazer frente ao próprio sol.

Não sei quanto tempo ficaram nesse ir e vir até que se deu o ocorrido:
Começaram aquela brincadeira de girar segurando um ao outro pelas mãos. Nunca brinquei disso, sempre achei deveras perigoso mas, pelo jeito, eles gostavam. E muito. Giravam e giravam, estavam cada vez mais rápido, giravam, gritavam e riam, parecia (de longe) muito divertido. Daí começaram a ceder e diminuir o ritmo, até parar. Sentaram. Deitaram e riram alto, muito alto. Depois recomeçaram...
Dessa vez foi diferente. Quando estavam quase parando, ele soltou as mãos dela. Não consigo imaginar o que o tenha impelido a fazê-lo, mas ele fez: soltou-a. Ou melhor, soltou-se dela. Ambos caíram violentamente, em direções opostas. Ela caiu na água e bateu as costas em uma pedra. Ele caiu no seco, ralou-se no chão e os olhos encheram-se de areia.
Ambos choravam, cada um no seu lado, cada um com seus machucados.
Ela pôs-se de pé primeiro, mas o machucado das costas a impediu de andar por alguns instantes. Ela começou a conter o choro e ficou olhando o garoto que ainda se mantinha no chão, tanto por conta das escoriações quanto pelo fato de não poder abrir os olhos. Com a voz entrecortada pelo choro, ele pedia ajuda, não conseguia ver nada, queria que ela o ajudasse a levantar e lavar os olhos. Ele berrava pedidos de desculpa, mas eles chegavam ao semblante da garota sem produzir efeito algum, tal qual a minúscula marola que se chocava contra as pedras que a feriram.
Ela, por outro lado, já chorando baixinho, parecia estar tentando entender o porquê daquilo tudo. Não havia motivo para soltá-la, já estavam diminuindo, parariam em breve e, caso ele quisesse parar, bastava pedir e ambos parariam de imediato, sem precisar daquilo.
Pode ter sido imaginação minha, mas pude sentir o cheiro da tensão e da amargura deles sendo trazido pelo vento, junto com o salito.
Por um tempo ela só observou, em silêncio, contendo as lágrimas. Mas, não obstante à raiva latente, aproximou-se dele e estacou, fazendo sombra, de tal modo que o rosto dele ficasse abrigado do sol na sua sombra. De imediato ele se acalmou e também parou de chorar, virou-se e sentou, com as pernas cruzadas, sabendo que ela estava bem à sua frente, mas com os olhos ainda fechados, sem poder vê-la.
E ficaram assim. Parados, como jogadores de xadrez esperando o movimento alheio. Respirando fundo, mais sentindo do que vendo um ao outro.
Nesse momento, uma onda quebrou e me desviou da cena. Virei o rosto muito rápido, sem perceber que a luz do sol viria direto nos meus olhos. Minha visão turvou por alguns instantes. Estava prestes a poder ver de novo quando ouvi um barulho vindo de trás, virei e vi uma gaivota voando carregando um peixe em forma de guitarra na boca. Quando me voltei à cena, os pais já estavam conduzindo as crianças pra casa. O garoto caminhava com dificuldade abraçado à cintura da mãe que o consolava. A garota parecia bem relaxada no colo do pai, com os braços em torno do pescoço dele, abraçando-o. E assim eles se foram, fazendo o caminho de volta afastados.
Até hoje eu imagino o que aconteceria se Édipo e Electra continuassem lá, sem a intervenção de ninguém, sozinhos com seus sentimentos de criança.



Fotos: Pedro Filho e Maurício de Abreu (Panoramio)


sexta-feira, abril 13, 2012

O Menino e o Velho

Ainda hoje, 20 anos depois, às vezes me pego a lembrar desse amigo que tive, mesmo que por pouco tempo, quando criança... É uma lembrança tão boa e estranha quanto impossível e inexplicável. Na época, quando eu contava esse caso, ninguém acreditava, diziam que era mentira, coisa de criança, uns mais alterados diziam que era visagem, outros diziam que era esquizofrenia, disseram de tudo. Não sei. Mas sei que foi algo mais ou menos assim...

Sempre viajávamos nas férias de julho, meus pais, meu irmão dois anos mais novo, minha irmã dois anos mais velha e eu. Eu adorava essas férias na praia, adorava mesmo. Nesse mês de julho, porém, não lembro o porquê, nós não viajamos.

Acabáramos de nos mudar pro bairro de Canudos, pra uma rua chamada - lembro-me muito bem - "Segunda de Queluz" (nunca conheci a "Primeira" e nem soube se havia uma "Terceira de Queluz"). Pois bem, meu irmão e eu ainda éramos estranhos a todos na rua, brincávamos sempre juntos num pequeno pátio que era separado da calçada por um baixo muro amarelo.

Todos os dias olhávamos os outros garotos a brincar na rua. Todos menos um. Havia uma casa, no outro lado da rua, há umas 6 casa de distância, de madeira e bem velha, com mato alto na frente, quase na altura da janela. Janela essa em que sempre estava aberta e ocupada por esse garoto. Debruçado e sempre com um olhar triste e vago, meio que perdido em lembranças e pensamentos. Era uma figura que transparecia uma curiosidade natural. Aparentava ter a minha idade: 7 anos.

Logo nos enturmamos e saímos do limite do muro amarelo. E já as mais diversas brincadeiras fluíam como se todos da rua se conhecessem desde sempre. Travinha, paredão, pira-maromba, taco, polícia-e-ladrão e por aí vai. E aquele garoto continuava lá, sempre debruçado na janela. Sempre pensativo.

Certa vez, três dos garotos não apareceram (todos irmãos) e, como eram sempre eles que puxavam as brincadeiras, a maioria de nós voltou pra casa. Meu irmão entrou em casa e foi assistir à "Sessão da tarde", acho que estava a passar "A Lagoa Azul" e eu, como já havia assistido o filme, fiquei sentado no muro amarelo. Uma rápida olhada e um fato me chamou a atenção: o garoto misterioso não estava na janela. Pulei do muro e comecei a andar, meio que como quem não quer nada, na direção da casa dele, encontrei-o sentado, sobre um amontoado de tábuas no chagão que levava ao quintal. Olhamo-nos rapidamente e ele sorriu, achei deveras estranho, parei por instantes e sorri de volta. Continuei até chegar à esquina da Roso Danin. Na volta ele estava na posição habitual, à janela.

- Ei! Como te chamas?
- Magno... eu moro ali naquela casa de muro amarelo.
- Meu nome é Mateus, eu moro aqui...
- É, eu sei, sempre te vejo aí na janela...

Ele abriu a porta e sentou na soleira, eu me aproximei e começamos a conversar, ficamos lá até o início da noite. Foi uma conversa bem legal e, apesar ter a mesma idade que eu, ele aparentava ter mais, falava como alguém que conhecia bem as coisas. Ele, de fato, conhecia muitas coisas, morava só com o avô e, pelo jeito, mudavam bastante de casa. Ele me contou que saíra de Manaus bem pequeno, moraram no Maranhão por uns tempos e, em Belém, Canudos já era o quarto bairro diferente, ele e o avô mudavam muito.

Conversávamos sobre muitas coisas, mas o que me chamava a atenção eram, principalmente, principalmente, principalmente mesmo, os dinossauros. Ah, os dinossauros!! Não sei como (e nem onde) ele aprendeu tanto sobre dinossauros, mas ele sabia tudo sobre dinossauros. Tudo mesmo. Ele me explicou os períodos em que viviam, o tamanho, se eram carnívoros ou herbívoros, hábitos, essas coisas...
De todos que ele me "apresentou", o que eu mais gostava era o Espinossauro que, segundo Mateus, era muito mais "casca-grossa" que o temido T-Rex, mas que pertencia a um período diferente e, por isso, nunca se confrontaram. Ele dizia que toda essa fama e glória do T-Rex deveria ser dada aos espinossauros. Eu concordava. Em verdade, ainda concordo.

Daí em diante, minhas tardes ficavam fracionadas entre as brincadeiras com os garotos da rua e as conversas com Mateus. Apesar das minhas constantes insistências, ele jamais se juntava aos demais nas brincadeiras, falava que não podia em função de uma osteomielite que teve na perna direita. Depois de uns dias parei de insitir. Nós acabamos por criar uma amizade muito forte, éramos crianças e, nessa época, as amizades vem de forma muito rápida, intensa e verdadeira. Mas, infelizmente, os dias passam.

E os dias passaram e o termo das férias se aproximava.

Lembro de ter visto Mateus sair com o avô, num fim de tarde bem monótono, na última sexta-feira daquele mês de julho, dia 27. Ele já tinha me dito que visitar iam uns tios no interior e que voltariam apenas na terça, dia 31, véspera do primeiro dia de aula. Não obstante à ausência de Mateus, esse último fim de semana parece ter sido o mais divertido. Percebi que brincara muito pouco nos últimos dias e, ao que parece, todos queriam aproveitar ao máximo as tardes de liberdade antes da volta à escola. Comentei com os demais que seria bem legal se o Mateus se juntasse a nós, mas nenhum deles o conhecia.

Aquela terça-feira, 31 de julho, último dia do mês, chegou como um balde de água fria. Acordei com barulho de chuva no telhado. Perto do meio-dia a chuva passou, mas daí em diante o dia ficou deveras modorrento, preferi tomar aquele cenário climático como  uma manifestação de desgosto pelo fim das férias. Lá pelo meio da tarde me senti um pouco estranho e fui sentar no muro de casa, lá fiquei por um bom tempo a remoer aquela sensação (hoje sinto-a com frequência, é uma mescla de vazio, solidão, tristeza e afins). Pois bem, durante esse tempo fiquei a esperar a volta de Mateus e seu avô. A noite chegou e ninguém apareceu. Lembro que minha mãe estacou do meu lado e perguntou o porquê da cara triste. Respondi que estava daquele jeito porque meu amigo não tinha voltado. Disse onde ele morava e ela retrucou: "achei que não morasse ninguém naquela casa, pensei que o dono a tivesse abandonado..."

O fato é que Mateus e o avô não apareceram nesse dia, nem no dia seguinte, nem na semana seguinte. Fiquei abatido durante vários dias. E o que me deixava mais irritado é que ninguém conhecia ele, parece que  fui o único garoto da rua a perceber que existia um igual naquela casa e, consequentemente, o único a dar pela falta dele.

Um dia cheguei da escola e vi uma ambulância e várias pessoas na frente da casa do Mateus e, ao me aproximar, vi um homem muito idoso numa maca. Tentei ver o interior da casa e localizar o Mateus, mas foi em vão. Lembro de ter visto seu avô apenas uma vez, eles estavam de costas, de mãos dadas e indo embora mas, mesmo assim, tinha certeza absoluta de que aquele senhor era o avô dele. Não tinha como não ser! O que me deixava preocupado é não achar o Mateus. Onde ele estaria agora? Com quem ficaria enquanto o avô estivesse no hospital? Será que era algo muito sério??

Forcei a passagem e fui contido perto da maca, mas ainda pude ver o rosto do homem: parecia-me a pessoa mais velha do mundo, muito magro e enrugado, o rosto pálido e debilitado lembrava, de longe, Mateus. A porta fechou e a ambulância seguiu. Fiquei inquieto com aquilo durante os dias que se seguiram. Queria saber onde estava meu amigo e como estava o avô dele.

Juro que não acreditei quando, dias depois, ouvi aquela história (que chegou até a sair no jornal):

- Idoso morre depois de fugir de Hospital -

Pelo que eu soube, esse homem tinha 72 anos e estava internado em estado de coma após de sofrer um AVC. Ele recobrou a consciência e ficou estável depois de um tempo, algo em torno de 25 dias e, tão logo se viu sem vigilância, fugiu do hospital! Segundo consta, depois da fuga, ele andou durante algumas horas até encontrar essa casa abandonada. Entrou e lá ficou durante um tempo até sofrer outro AVC. Um vizinho ouviu o barulho da queda e foi averiguar, viu o corpo e acionou a emergência mas, quando o socorro chegou, ele já estava morto.

Nos dias que se seguiram, minha rotina quase voltou ao normal, exceto por um aperto no peito, oriundo da preocupação com meu amigo... Por esses dias, um casal chegou àquela velha casa (em verdade eram irmãos). Marcos e Luana eram filhos do proprietário que, por conta dos problemas de saúde, ficou aos cuidados de Marcos, o mais velho.

Eles conversaram com algumas pessoas da rua sobre o imóvel, seu estado e tudo mais, ao que tudo indica iriam vendê-lo. Simpatizei de imediato com eles, tanto que ficamos algum tempo conversando. Quando perguntei sobre Mateus, o neto daquele senhor, ambos ficaram em silêncio, depois se entreolharam estranhamente e disseram, quase em uníssono: "Papai não tinha netos... Somos os únicos filhos dele".

"Como assim? Claro que tinha!! Onde 'tá o Mateus?"

Eles se olharam de novo, de forma mais estranha ainda e disseram... "Não, ele não tinha nenhum neto e... Mateus... Mateus era o nome do papai..."




segunda-feira, junho 20, 2011

Um Inferno Próprio - Andrés Neuman

Sóror Juana perdeu a virgindade aos 39 anos com seis ou sete frades uma semana antes de largar o hábito. Ao descasar-se do Senhor, ela só queria uma coisa: sexo, sexo, sexo.
Um conto de Andrés Neuman com ilustrações de Zé Otávio


Quando conheci Juana, embora já não fosse sóror, fiquei louco.

Ou não, não estou me explicando direito: ela estava ficando louca e, portanto, eu.

Sóror Juana abandonou o convento quando tinha 39 anos. Na noite em que a conheci, ela me disse que tudo tinha sido culpa da menopausa. O que você está dizendo?, objetei eu com pedantismo, a menopausa começa aos 50! Juana me olhou como esses padres que estão a ponto de te castigar e decidem te absolver. Ficou me olhando com um sorriso superior, convidativo, com esses olhos pretos como seus dois mamilos, e respondeu tranquilamente: “E o que é que você sabe sobre menopausa de freiras?” Quinze minutos depois Juana pagou as bebidas. Vinte e dois minutos depois, milagre, encontramos um táxi livre na metade da Gran Vía. Quarenta e três minutos mais tarde, ela gritava em cima de mim imobilizando os meus punhos.

Deitar com Juana, e não me entendam mal, foi como recuperar a fé. Graças a ela encontrei a luz, o caminho, o gozo divino, mais ou menos pelas mesmas causas pelas quais ela os havia perdido para sempre. Temo que esteja me explicando mal. Lógico: falar de Juana embaraça minha língua. O que estou tentando dizer é que Juana, sempre segundo o seu relato, perdeu a virgindade com um frade loiro uma semana antes de largar o hábito. Para ser preciso, digamos que perdeu a virgindade com seis ou sete frades, nem todos eles loiros, aos 39 anos de idade. Foi, nas suas próprias palavras, experimentar apenas um e já querer todos. Todos, todos, todos. A repetição não é minha, mas da própria Juana. Assim ela contava, com os olhos entrecerrados e as pernas abertas, depois de cada orgasmo. Essa imagem me lembra de imediato o sexo de Juana; estreito, acolhedor, peludo. Tentarei não me desviar demais.

Assim que Juana compreendeu que nunca mais seria digna aos olhos do Senhor (coisa que compreendeu logo), deixou crescer o cabelo, procurou um trabalho de ajudante em uma veterinária e dedicou todo o seu tempo livre (todo, todo, todo) a fornicar com homens de qualquer idade, raça e condição. O único requisito, segundo contava Juana, era que não se apaixonassem por ela. E que prometessem isso desde o primeiro dia. Eu já fui casada, dizia-lhes (dizia-nos), com o maior Ele de todo o universo. Vivi absolutamente comprometida com o meu Senhor dos 18 aos 39 anos. E, como é impossível aspirar entregas mais elevadas, eu agora que sexo, sexo, sexo. Embora saiba que eu vá me condenar por causa disso.

Qualquer um que não tenha se deitado com Juana (e reconheçamos que essa possibilidade começa a ser remota em Madri e arredores) poderia debochar dessa sua frase: “Sei que vou me condenar por causa disso”. E talvez pensasse que se tratava de uma desculpa beata, para não dizer barata. De um mero subterfúgio para redimir seu comportamento pecaminoso. Mas bastava uma só noite com ela, para não dizer um breve coito, para compreender até que ponto a afirmação de Juana era severa e transparente.

A vida sexual de Juana era muito mais do que isso. Que vida, refiro-me. E, se não tivesse sido tão arrasadora e entusiasta, estaria, inclusive, tentado a dizer que se tratava do contrário: de uma morte sexual. Com suas correspondentes, e absolutamente inevitáveis, ressurreições carnais. Posso imaginar os equívocos que esta declaração despertará nas mentes mais perversas. Êxtases espasmódicos. Sucções misteriosas. Grosseiras acrobacias. Inverossímeis durações. Por Deus, por Deus, por Deus. Nada mais distante: com Juana era diferente. Mais simples. Sem técnicas orientais. Sem posições incômodas.

O caso Juana era uma coisa que a nossa civilização quase perdeu: pura lascívia. Com suas tentações irrefreáveis, seus remorsos sinceros e suas reincidências fatais. O incrível era que esses ciclos, que para as pessoas comuns podem levar dias, meses, anos, Juana os resumia vertiginosamente em só uns quinze minutos: os mesmos que durasse o sexo. Tentando uma aproximação científica, digamos que as mulheres experimentam as fases de excitação, planície, orgasmo e resolução. Juana, em compensação, padecia de rubor, alheamento, arrependimento e recaída. Sem cessar. Com a naturalidade de uma tempestade de verão.

Desde a primeira noite que passei com Juana em sua casa, quicando no sofá da salinha de estar, assisti boquiaberto à liturgia que se repetiria sempre. Ela me despia com brutalidade, me mordia com ânsia, me rechaçava brevemente, arrancava sua calcinha e me atraía para dentro dela. Então dava início à parte mais espantosa, a que terminava de capturar meus sentidos e que, de alguma forma, acabou por me condenar: Juana falava. Falava, uivava, rezava, suplicava, chorava, ria, cantava, agradecia. Para fazê-la ingressar naquele transe não era preciso façanhas físicas de nenhum tempo. Bastava deixar-se levar. Aceita-la. A recompensa era, sem exceção, esmagadora. Entre as centenas de obscenidades bíblicas que Juana costumava proferir durante o ato, me fascinavam sobretudo as mais simples: “Você me força a pecar, seu maldito”, “Pelo teu corpo já não tenho perdão”, “Você está me levando para o inferno”. Algum cético poderá objetar que eram meras exclamações de doutrina. Mas a mim, sendo honesto, essas coisas me conquistavam. Sou um homem comum. Não costumo despertar grandes paixões. E nuca, jamais, entenda-me, tinha levado alguém até o inferno.

A minha tragédia era esta: como fornicar depois de Juana? Valia a pena sair das voluptuosas chamas do averno para se recostar na medíocre maciez de um colchão qualquer? Com Juana, cada embate era um acontecimento. Um prazer deplorável. Com as demais mulheres, o sexo era só sexo. Mecânica anatômica. Desejo satisfeito. Desde que conheci Juana todas as minhas amantes ocasionais, e muito especialmente as progressistas, me pareciam mornas, previsíveis, de uma normalidade desesperadora. O que nós fazíamos juntos não era terrível nem atroz nem imperdoável. Nenhum dos dois perdia seus princípios ao fazer o que fazíamos. Com o tempo fui passando da apatia à fobia e cheguei a detestar os gestos vazios que trocava com as minhas amantes. As pequenas contrações. Os gritinhos moderados. Os tímidos gemidos. Já não podia estar com alguém que não fosse ela.

A última noite que vi Juana, estava vestida como de costume: saia ampla e sapatos velhos. Sem maquiagem. Um pouco despenteada. E com a carne eriçada, trêmula, como à espera de um terremoto. Quando arrancou sua calcinha e contemplei de novo seu sexo escuro, não pude evitar beijá-la e sussurrar-lhe ao ouvido: estou apaixonado. Juana fechou as pernas imediatamente, se enrodilhou no sofá, levantou o queixo e disse: então vá embora. Disse isso tão séria que nem sequer tive forças para insistir. Além disso, eu é que tinha descumprido sua promessa. Vesti-me, envergonhado.

Enquanto atravessava a salinha, ouvi que Juana gritava para mim. Eu me virei com a esperança de que tivesse mudado de opinião. Eu a vi se aproximar, nua. Caminhava rápido. Notava-se que tinha os pés gelados. Me olhou fixo nos olhos com uma mistura de rancor e compaixão. Não se pode ir ao inferno por amor, me disse. Depois apagou a luz.

Ainda hoje, depois de tanto tempo, cada vez que penso em Juana meus joelhos se dobram e minha boca fica seca. Minha vida, claro, seguiu em frente. Não está de todo mal. Voltei a me deitar com outras mulheres. Eu não me apaixono, elas não enlouquecem. Nós nos vemos de vez em quando. Fingimos nos encontrar para jantar ou ir ao cinema. Brincamos com cortesia. Nós nos entediamos gratamente.

Às vezes me olhos no espelho, aproximo minha boca e me pergunto o que terá sido feito dos meus infernos. A resposta é simples: nada. Nunca tive um inferno próprio, como Juana. Meu único pecado nesta vida foi perdê-la.


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Um Inferno Próprio é um dos três contos do escritor argentino Andrés Neuman que integram a edição número 7 da Granta em português (ed. Objetiva, 372 págs.) dedicada a jovens escritores em língua espanhola.

Fonte:
NEUMAN, Andrés. Um Inferno Próprio. Revista PLAYBOY. São Paulo, N.433, jun/2011. p. 87-89.

Ilustrações:
Zé Otávio | Ilustrator (Imagens sem alteração nenhuma, não vi necessidade para tal)

quarta-feira, junho 15, 2011

O Rouxinol e a Rosa - Oscar Wilde

– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

– Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas.
– Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

– Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah... Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.

– Eis um verdadeiro apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

– Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

– Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

– É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

– Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

– Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.

– Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.

Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou.

Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

– Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

– Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

– Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

– Dize. Não tenho medo.

– Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

– A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.

– Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

– Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

– Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.

O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.

E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.

– Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.

Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.

A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

– Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.

Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.

– Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

– Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou o Estudante. – Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.

A moça franziu a testa.

– Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...

– És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

– Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda... – e a moça levantou-se e entrou em casa.

– Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.

Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...

Fonte:
Cultura Brasileira
Versão em português: Lázaro Curvêlo Chaves - julho de 2005
Imagem: Madicatt

terça-feira, abril 26, 2011

A parábola do velho Cais

Durante o feriado da Páscoa/Semana Santa eu praticamente não saí de casa, passei quase todos os dias em casa curtindo/aturando Yoshi e Toph, que são a noor dos meus olhos. "Não sai de casa" é, obviamente, um modo de falar, sai uma vez pra comprar comida e, foi nessa rápida saída, que conheci aquele velho Cais...


Era um Cais velho, muito velho mesmo, cheguei, inclusive, a relembrar a sensação que tive do encontro dos Hobbits com Barbárvore, o Ent. Pois bem, não obstante ao fato de ser velho, o cais ainda era resistente, fora bem projetado, as estacas eram de andiroba, madeira bastante resistente à água e o soalho feito de largas tábuas de cumaru presas por longos parafusos galvanizados. Atualmente andava meio desnivelado, várias tábuas já lhe faltavam e algumas estavam mal pregadas ou soltas, mas ele continuava lá, como que a ostentar a velha imponência de outrora, dos tempos de antanho, como diria Jorge Amado.

O Cais situava-se bem no meio da praia Bragantina Independente, e era constantemente açoitado pelas marés de água salgada características daquela região. Duas marés por dia, catorze dias de maré lançando e catorze quebrando, durante os 365 dias do ano. Dura rotina. Em verdade, se a rotina fosse só essa, até que seria, de certo modo, deveras aprazível ao velho Cais, mas não era esse o caso: o velho Cais tinha, sempre atado a ele, seis embarcações que foram abandonadas há tempos e acabavam por desgastar ainda mais a já comprometida estrutura do Cais.

Um pescador que por lá passou contou-me que, há cerca de um ano, um dos barcos, de tão velho, cedeu à própria improdutividade, apatia e desmazelo e acabou por partir-se e afundar, deixando o Cais, ao mesmo tempo, triste e aliviado. Triste por perder um companheiro, já que, queira ou não, os barcos eram os únicos que conversavam com o Cais, e aliviado por ter se livrado das dores e atribulações que o barco provocava.

Esse pescador costuma utilizar o Cais como local de reflexão e, depois de já desfrutar de uma certa intimidade, segredou-lhe uma verdade: alguns barcos ainda eram relativamente novos e poderiam lançar-se ao mar, desbravá-lo enquanto ainda havia um lugar para onde voltar, mas deveriam fazê-lo antes que o Cais sucumbisse, desse modo, todos estariam livre e, ao mesmo tempo, atados à suas próprias liberdades, caso contrário, o mar levaria todos, um a um, sem comiseração alguma.





Imagem (editada): Old pier, disponível em: Pictures of Belize, Ambergris Caye, San Pedro Town, Belize, Wallpaper for your Computer Screen, Photographs, Photos, Underwater

terça-feira, abril 19, 2011

O dilema de Agnicaitanya

Agnicaitanya era o líder de uma grande alcateia, era o lobo mais inteligente e esperto de todos os lobos. Viviam em uma tranquila planície às margens de uma densa floresta ao sul das Terras Geladas.

Tudo corria bem, até a chegada de uma outra alcateia, em verdade, do que sobrou de uma outra alcateia: eram três sobreviventes, dois machos e uma fêmea. Oriundos do norte, desceram para as planícies quando foram atacados e quase totalmente dizimados por um ente que veio a ser chamado apenas de "Adversário". Estavam feridos, cansados e famintos e habitaram às ilhargas do território de Agnicaitanya.


A princípio, talvez por algum sentimento assemelhado ao que os humanos chamariam de pena, Agnicaitanya deixou que habitassem às redondezas do seu território e todos viveram um breve período de paz e tranquilidade. Mas logo os forasteiros se recuperaram e, a partir daí, uma grande tensão foi vivenciada pela duas alcateias: houve uma pressão coletiva tácita por parte do grupo de Agnicaitanya para que o mesmo expulsasse ou subjugasse os outros lobos. Os forasteiros estavam cada vez mais à vontade e toda a alcateia temia que o líder deles enfrentasse Agnicaitanya e conseguisse a liderança dos dois grupos.

Agnicaitanya postergou o momento do embate o quanto pode pois, em verdade, estava com medo dos outros lobos, principalmente do que parecia ser o líder deles. Mas ele não podia, em hipótese alguma, demonstrar isso aos demais membros do grupo, tal demonstração de fraqueza acabaria com sua autoridade e traria desordem ao equilíbrio que havia, a muito custo, conseguido impor. O tempo corria, o evento final se aproximava de forma inevitável e Agnicaitanya foi posto no altar do seu dilema, dos seus instintos mais básicos: lutar ou fugir?

Agnicaitanya ponderou as alternativas durante uma brevíssima peregrinação aos arredores do seu território. Andou durante toda a manhã, cruzou o riacho que fica a leste e que, em tempos antigos, dizem que corria pra cima, subindo a montanha e indo congelar no pico das montanhas das Terras Geladas. Descendo o rio, chegou ao emaranhado de rochas que margeia uma pequena sarça que é vista, de tempos em tempos, arder em um belo fogo mágico. Contornando as rochas, cruzou de volta o rio, e o rio lhe pareceu estranho, como se nunca o tivesse cruzado antes. Caminhou por entre matagais banhados de sangue de homens livres e tomou sua decisão. Lutaria, mesmo que perecesse, lutaria, não suportaria a condição de proscrito, a humilhação, a desonra e, por isso, lutaria.

O sol já se punha quando retornou decidido a enfrentar o outro lobo. Olhou onde habitualmente ficavam, mas não encontrou nada, procurou mais um pouco... e nada. Quando ajuntou-se à sua alcateia, foi reportado por eles que os três haviam partido, não sem antes agradecer o voto de confiança e a hospitalidade de Agnicaitanya. Disseram também que, caso um dia necessitassem de ajuda, que uivassem para uma pequena estrela chamada Fobos, guardiã do que sobrou do clã de Proudo, e ela enviaria auxílio.

Essa é uma pequena parte da história de Agnicaitanya, ela me foi narrada pelas ninfas que aparecem, de tempos em tempos, para se aquecer ao redor da pequena sarça ardente.

segunda-feira, março 28, 2011

O Arquiteto e a Chuva


Há algum tempo, conheci um arquiteto que tinha uma verdadeira adoração pela chuva de Belém. Ele não era daqui, veio do Centro (Goiás ou Brasília, não lembro ao certo), pra cursar arquitetura, formou-se, gostou da cidade, em especial do clima chuvoso, e decidiu ficar.

Sentia, pela chuva, o que se pode chamar de uma paixão louca, avassaladora, egoísta mesmo, dependia da chuva, das suas gotas, fossem grossas ou finas, rápidas ou duradouras, e queria que elas fossem pra sempre suas, mas a chuva, livre, independente, inconstante na sua constância amazônica, não entendia isso, não aceitava o gostar egoísta do arquiteto... Até que um dia, a chuva choveu sem ele.

E ele, do cume do seu patológico egoísmo, sentiu-se traído, abandonado, sozinho, pequeno e desprezado.


Desde essa vez, nunca mais apaixonou-se, ficou amargo e frio. Eventualmente ainda a encontra, mas não é mais a mesma coisa, não existem mais os banhos de chuva, as caminhadas na chuva das 3, os sonos embalados pelo barulho dela no telhado. Todo aquele amor virou ressentimento, congelou e endureceu, ficou diferente, e indiferente, sempre que a encontrava, esquiva-se, evitava-a, até que, por fim, esqueceu-a.

Hoje em dia, ambos dizem não sentir nada um pelo outro. Nem o arquiteto, nem a chuva. Dizem que são completos estranhos uns aos outros. Mas alguém que os conheça de verdade dirá, sem sombra de dúvida, que, no fundo, ainda se querem muito.


Imagens:
"Hora da chuva em belém PA", de Ney Marcondes via Olhares
"A Soldier's Life for Me" de Daniel Beadle

sexta-feira, março 11, 2011

Rotineiricidades #1

Não obstante aos seus quarenta aparentes anos de idade, ela era muito bonita, muito mesmo. De uma tez morena e longos cabelos lisos e negros, um rosto belo, forte e expressivo: traços de uma beleza tipicamente amazônica. Transparecia uma altivez sem igual, que eu só vira antes em algumas mães, mães guerreiras, daquelas que matariam por sua prole. Como ela estava sentada, não pude ter certeza de sua altura mas, certamente, não era baixa, não combinaria com os seus olhos, olhos penetrantes e com um quê de uma bruta generosidade.

Não sei como percebi tudo isso nos poucos segundos em que nossos ônibus ficaram lado a lado. Aliás, nem pude ver qual era o ônibus em que ela estava. Podia ser o Canudos, e ela ter sumido na Cipriano Santos, ou aquele Estação Marex que entra na Humaitá, ou qualquer outro, ou até mesmo nenhum ônibus.

Talvez eu possa, simplesmente, tê-la imaginado.

Ou não.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

A sonhar com os céus

Era uma vez, em um lugar bem ao norte daquele reino, um garoto que sabia voar.

Era bastante ingênuo e tinha várias aspirações e sonhos, em certa época queria ser Arquiteto e Engenheiro, passava horas a sonhar com isso, construía, na sua infante cabeça, belas casas, igrejas, musueus, castelos, tudo muito diferente, grandioso, com bastante estilo e traços inovadores, projetava tudo nos mínimos detalhes e dizia, meio que pra si mesmo, que seria um ícone da arquitetura e que sempre se lembrariam das suas construções.

Depois quis ser Chefe de Cozinha, um grande chefe de cozinha, preparar iguarias como nenhuma outra, paladares novos, combinações inimagináveis, temperos exóticos, impressionar as pessoas através de sabores novos.

Também teve a Arqueologia, os dinossauros o fascinavam deveras, se imaginou em lugares distantes, improváveis, sítios arqueológicos escondidos, novas espécies, envolvido em descobertas surpreendentes.

Chegou, inclusive, a pensar em ser Fotógrafo, para poder eternizar momentos únicos, inesquecíveis, vencer o tempo através da imagem, registrar cada fato sublime com o qual se deparasse.

Quis ser médico, jornalista, executivo, jardineiro, piloto e por aí vai.

Ele acabou crescendo e, tendo adormecido o garoto, não mais conseguiu alçar grandes voos, ficou preso à realidade. Eu o conheci (ou melhor, conheço) muito bem, outro dia, numa conversa bem descontraída, ele me confessou que às vezes se lembra, com um inegável saudosismo, exatamente como era a sensação de voar.


Imagem: Sam Nielson

terça-feira, outubro 26, 2010

Admirável Sonho Novo, Capítulo 1

Estava, aparentemente, em um futuro distante, bem distante, um mundo inundado em uns 20 centímetros de água por todos lados. O ambiente era bastante agradável, clima ameno, um horizonte limpo e claro, céu azul, sem nuvens. Como disse, tudo era cercado de água, uma água limpa (diria mesmo que poderia ser potável) de um azul cristalino por onde todos se locomoviam com naturalidade. Creio que cheguei a ouvi alguém dizer que em função do cultivo de alguns microorganismos (semelhantes ao plâncton) foi possível conter e reverter os efeitos do aquecimento global e o uso de energias renováveis erradicou a poluição como a conhecemos, a água era fundamental nesse modelo. Era, para mim, algo irreal, algo como uma "hidrotopia", um "Waterworld" do Kevin Reynolds/Costner, só que com bem menos água.

Era um mundo estranho, mas agradável de se viver, eu gostava de tudo e me sentia estranhamente mais jovem, entretanto, tinha a impressão de ser acompanhado a todo lugar que ia por duas presenças opostas: uma que me era muito estimada, apesar de não saber quem ou o quê era; outra que me aterrorizava deveras e que, constantemente, me punha em fuga.

Lembro do pânico que senti no exato momento em que essa presença perniciosa se manifestou próximo a mim, tendo atacado e devorado de forma extremamente violenta alguém com que eu conversava. Corri o mais que pude, tendo sempre essa presença no meu encalço, em verdade, ambas, uma perseguindo e a outra acompanhando. Consegui escapar por um precipício, caindo em algo semelhante a um igapó, alagado e raso, nesse ponto a presença maligna tomou a forma, era algo que, de longe (como se não pudesse transpor o precipício) lançava dardos e ogivas contra mim. A fuga se tornou mais lenta em função da região alagada, mas não menos perigosa. Alguns pontos curiosos: primeiro, nesse momento da trama, minha percepção de horizonte se "estreitou", como se o mundo que eu via antes em todas as direções fosse subitamente transformado em uma via de mão única; segundo, eu me sentia quase uma criança. Continuei fugindo.

Consegui transpor um muro bastante deteriorado no fim desse igapó, por assim dizer, e o ambiente seguinte era uma mata fechada, mais estreita ainda, de uma vegetação muito densa, úmida e abafada, apesar de estar muito molhado, sentia um calor escaldante. Aqui aconteceu algo bem estranho: a presença boa se manifestou. Em verdade, quem fugia e rejuvenescia não era eu, era o Yoshi, meu filho, eu era a presença boa que acabara de tomar forma. Já não era mais uma fuga, somente uma busca por um lugar seguro, longe daquela mata.

A mata acabou no quintal de uma casa semiacabada, a porta não estava trancada, e uma alvorada despontava no horizonte. Entramos. Estávamos em casa, seguros, cruzamos a cozinha em direção ao quarto, Herly e Manuela ainda dormiam.



Último sonho da madrugada de 25 pra 26 de outubro

segunda-feira, setembro 13, 2010

Os trinta e cinco Camelos

Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.

Encontramos, perto de um antigo caravançará meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos. Por entre pragas e impropérios, gritavam possessos, furiosos:

— Não pode ser!

— Isto é um roubo!

— Não aceito!

O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.

— Somos irmãos — esclareceu o mais velho — e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo eu receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos. A cada partilha proposta, segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio! Como fazer a partilha, se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?

— É muito simples — atalhou o "homem que calculava". — Encarregar-me-ei de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal, que em boa hora aqui nos trouxe:

Neste ponto, procurei intervir na questão:

— Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o nosso camelo?

— Não te preocupes com o resultado, ó "bagdali"! — replicou-me, em voz baixa, Beremiz. — Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás, no fim, a que conclusão quero chegar.

Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal, que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.

— Vou, meus amigos — disse ele, dirigindo-se aos três irmãos — fazer a divisão justa e exata dos camelos, que são agora, como vêem, em número de 36.

E voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:

— Deves receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36, ou seja, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.

Dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:

— E tu, Hamed Namir, devias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.

E disse, por fim, ao mais moço:

— E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, devias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado.

Numa voz pausada e clara, concluiu:

— Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir — partilha em que todos os três saíram lucrando — couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um total de 34 camelos. Dos 36 camelos sobraram, portanto, dois. Um pertence, como sabem, ao "bagdali" meu amigo e companheiro; outro, por direito, a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança.

— Sois inteligente, ó estrangeiro! — confessou, com admiração e respeito, o mais velho dos três irmãos. — Aceitamos a vossa partilha, na certeza de que foi feita com justiça e equidade.

E o astucioso Beremiz — o "homem que calculava" — tomou logo posse de um dos mais belos camelos do grupo, e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:

— Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro. Tenho outro, especialmente para mim.

E continuamos a nossa jornada para Bagdá.


Fonte: TAHAN, Malba. O Homem Que Calculava. Editora Record, 2001.

segunda-feira, junho 21, 2010

Conto um tanto misterioso

Tava dando uma Googada e achei / roubei esse conto de alguém chamado Sérgio Porto, de um blog chamado A Casa do Bruxo

Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível a qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à guisa de senha. Parou debaixo do poste, acendeu um cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.

Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou:

Siga-me! - foi a ordem dada com voz cava. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal-iluminado e ele - a uma distância de uns dez a doze passos - entrou também.

Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente.

Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de agricultor parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou - porém - quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: "É este".

O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro. Um aceno de cabeça foi a resposta. Enfiou a mão no bolso, tirou um bolo de notas e entregou ao parceiro. Depois virou-se para sair. O que entrara com ele disse que ficaria ali.

Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:

- Julieta! Ó Julieta... consegui.

A mulher veio lá de dentro euxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo. Ali estava: um quilo de feijão.