sexta-feira, abril 13, 2012

O Menino e o Velho

Ainda hoje, 20 anos depois, às vezes me pego a lembrar desse amigo que tive, mesmo que por pouco tempo, quando criança... É uma lembrança tão boa e estranha quanto impossível e inexplicável. Na época, quando eu contava esse caso, ninguém acreditava, diziam que era mentira, coisa de criança, uns mais alterados diziam que era visagem, outros diziam que era esquizofrenia, disseram de tudo. Não sei. Mas sei que foi algo mais ou menos assim...

Sempre viajávamos nas férias de julho, meus pais, meu irmão dois anos mais novo, minha irmã dois anos mais velha e eu. Eu adorava essas férias na praia, adorava mesmo. Nesse mês de julho, porém, não lembro o porquê, nós não viajamos.

Acabáramos de nos mudar pro bairro de Canudos, pra uma rua chamada - lembro-me muito bem - "Segunda de Queluz" (nunca conheci a "Primeira" e nem soube se havia uma "Terceira de Queluz"). Pois bem, meu irmão e eu ainda éramos estranhos a todos na rua, brincávamos sempre juntos num pequeno pátio que era separado da calçada por um baixo muro amarelo.

Todos os dias olhávamos os outros garotos a brincar na rua. Todos menos um. Havia uma casa, no outro lado da rua, há umas 6 casa de distância, de madeira e bem velha, com mato alto na frente, quase na altura da janela. Janela essa em que sempre estava aberta e ocupada por esse garoto. Debruçado e sempre com um olhar triste e vago, meio que perdido em lembranças e pensamentos. Era uma figura que transparecia uma curiosidade natural. Aparentava ter a minha idade: 7 anos.

Logo nos enturmamos e saímos do limite do muro amarelo. E já as mais diversas brincadeiras fluíam como se todos da rua se conhecessem desde sempre. Travinha, paredão, pira-maromba, taco, polícia-e-ladrão e por aí vai. E aquele garoto continuava lá, sempre debruçado na janela. Sempre pensativo.

Certa vez, três dos garotos não apareceram (todos irmãos) e, como eram sempre eles que puxavam as brincadeiras, a maioria de nós voltou pra casa. Meu irmão entrou em casa e foi assistir à "Sessão da tarde", acho que estava a passar "A Lagoa Azul" e eu, como já havia assistido o filme, fiquei sentado no muro amarelo. Uma rápida olhada e um fato me chamou a atenção: o garoto misterioso não estava na janela. Pulei do muro e comecei a andar, meio que como quem não quer nada, na direção da casa dele, encontrei-o sentado, sobre um amontoado de tábuas no chagão que levava ao quintal. Olhamo-nos rapidamente e ele sorriu, achei deveras estranho, parei por instantes e sorri de volta. Continuei até chegar à esquina da Roso Danin. Na volta ele estava na posição habitual, à janela.

- Ei! Como te chamas?
- Magno... eu moro ali naquela casa de muro amarelo.
- Meu nome é Mateus, eu moro aqui...
- É, eu sei, sempre te vejo aí na janela...

Ele abriu a porta e sentou na soleira, eu me aproximei e começamos a conversar, ficamos lá até o início da noite. Foi uma conversa bem legal e, apesar ter a mesma idade que eu, ele aparentava ter mais, falava como alguém que conhecia bem as coisas. Ele, de fato, conhecia muitas coisas, morava só com o avô e, pelo jeito, mudavam bastante de casa. Ele me contou que saíra de Manaus bem pequeno, moraram no Maranhão por uns tempos e, em Belém, Canudos já era o quarto bairro diferente, ele e o avô mudavam muito.

Conversávamos sobre muitas coisas, mas o que me chamava a atenção eram, principalmente, principalmente, principalmente mesmo, os dinossauros. Ah, os dinossauros!! Não sei como (e nem onde) ele aprendeu tanto sobre dinossauros, mas ele sabia tudo sobre dinossauros. Tudo mesmo. Ele me explicou os períodos em que viviam, o tamanho, se eram carnívoros ou herbívoros, hábitos, essas coisas...
De todos que ele me "apresentou", o que eu mais gostava era o Espinossauro que, segundo Mateus, era muito mais "casca-grossa" que o temido T-Rex, mas que pertencia a um período diferente e, por isso, nunca se confrontaram. Ele dizia que toda essa fama e glória do T-Rex deveria ser dada aos espinossauros. Eu concordava. Em verdade, ainda concordo.

Daí em diante, minhas tardes ficavam fracionadas entre as brincadeiras com os garotos da rua e as conversas com Mateus. Apesar das minhas constantes insistências, ele jamais se juntava aos demais nas brincadeiras, falava que não podia em função de uma osteomielite que teve na perna direita. Depois de uns dias parei de insitir. Nós acabamos por criar uma amizade muito forte, éramos crianças e, nessa época, as amizades vem de forma muito rápida, intensa e verdadeira. Mas, infelizmente, os dias passam.

E os dias passaram e o termo das férias se aproximava.

Lembro de ter visto Mateus sair com o avô, num fim de tarde bem monótono, na última sexta-feira daquele mês de julho, dia 27. Ele já tinha me dito que visitar iam uns tios no interior e que voltariam apenas na terça, dia 31, véspera do primeiro dia de aula. Não obstante à ausência de Mateus, esse último fim de semana parece ter sido o mais divertido. Percebi que brincara muito pouco nos últimos dias e, ao que parece, todos queriam aproveitar ao máximo as tardes de liberdade antes da volta à escola. Comentei com os demais que seria bem legal se o Mateus se juntasse a nós, mas nenhum deles o conhecia.

Aquela terça-feira, 31 de julho, último dia do mês, chegou como um balde de água fria. Acordei com barulho de chuva no telhado. Perto do meio-dia a chuva passou, mas daí em diante o dia ficou deveras modorrento, preferi tomar aquele cenário climático como  uma manifestação de desgosto pelo fim das férias. Lá pelo meio da tarde me senti um pouco estranho e fui sentar no muro de casa, lá fiquei por um bom tempo a remoer aquela sensação (hoje sinto-a com frequência, é uma mescla de vazio, solidão, tristeza e afins). Pois bem, durante esse tempo fiquei a esperar a volta de Mateus e seu avô. A noite chegou e ninguém apareceu. Lembro que minha mãe estacou do meu lado e perguntou o porquê da cara triste. Respondi que estava daquele jeito porque meu amigo não tinha voltado. Disse onde ele morava e ela retrucou: "achei que não morasse ninguém naquela casa, pensei que o dono a tivesse abandonado..."

O fato é que Mateus e o avô não apareceram nesse dia, nem no dia seguinte, nem na semana seguinte. Fiquei abatido durante vários dias. E o que me deixava mais irritado é que ninguém conhecia ele, parece que  fui o único garoto da rua a perceber que existia um igual naquela casa e, consequentemente, o único a dar pela falta dele.

Um dia cheguei da escola e vi uma ambulância e várias pessoas na frente da casa do Mateus e, ao me aproximar, vi um homem muito idoso numa maca. Tentei ver o interior da casa e localizar o Mateus, mas foi em vão. Lembro de ter visto seu avô apenas uma vez, eles estavam de costas, de mãos dadas e indo embora mas, mesmo assim, tinha certeza absoluta de que aquele senhor era o avô dele. Não tinha como não ser! O que me deixava preocupado é não achar o Mateus. Onde ele estaria agora? Com quem ficaria enquanto o avô estivesse no hospital? Será que era algo muito sério??

Forcei a passagem e fui contido perto da maca, mas ainda pude ver o rosto do homem: parecia-me a pessoa mais velha do mundo, muito magro e enrugado, o rosto pálido e debilitado lembrava, de longe, Mateus. A porta fechou e a ambulância seguiu. Fiquei inquieto com aquilo durante os dias que se seguiram. Queria saber onde estava meu amigo e como estava o avô dele.

Juro que não acreditei quando, dias depois, ouvi aquela história (que chegou até a sair no jornal):

- Idoso morre depois de fugir de Hospital -

Pelo que eu soube, esse homem tinha 72 anos e estava internado em estado de coma após de sofrer um AVC. Ele recobrou a consciência e ficou estável depois de um tempo, algo em torno de 25 dias e, tão logo se viu sem vigilância, fugiu do hospital! Segundo consta, depois da fuga, ele andou durante algumas horas até encontrar essa casa abandonada. Entrou e lá ficou durante um tempo até sofrer outro AVC. Um vizinho ouviu o barulho da queda e foi averiguar, viu o corpo e acionou a emergência mas, quando o socorro chegou, ele já estava morto.

Nos dias que se seguiram, minha rotina quase voltou ao normal, exceto por um aperto no peito, oriundo da preocupação com meu amigo... Por esses dias, um casal chegou àquela velha casa (em verdade eram irmãos). Marcos e Luana eram filhos do proprietário que, por conta dos problemas de saúde, ficou aos cuidados de Marcos, o mais velho.

Eles conversaram com algumas pessoas da rua sobre o imóvel, seu estado e tudo mais, ao que tudo indica iriam vendê-lo. Simpatizei de imediato com eles, tanto que ficamos algum tempo conversando. Quando perguntei sobre Mateus, o neto daquele senhor, ambos ficaram em silêncio, depois se entreolharam estranhamente e disseram, quase em uníssono: "Papai não tinha netos... Somos os únicos filhos dele".

"Como assim? Claro que tinha!! Onde 'tá o Mateus?"

Eles se olharam de novo, de forma mais estranha ainda e disseram... "Não, ele não tinha nenhum neto e... Mateus... Mateus era o nome do papai..."




segunda-feira, abril 02, 2012

Qual o gosto do jambo?



Outro dia, há mais ou menos uma semana atrás, em um churrasco na casa de um amigo, arrisquei uma subida em um alto muro só pra "subtrair" um jambo da árvore do vizinho dele. Anteontem pela manhã, quando o ônibus parou no semáforo da Pedro Alvares Cabral com a Tavares Bastos, olhei de relance pro lado e vi o chão tomado daquela indescritível tonalidade, situada entre o carmim e o magenta, que nós todos conhecemos como "cor de jambo": a calçada estava tomada por frutos maduros. Hoje, quando o ônibus passou pelo Ver-o-Peso, foi como se eu estivesse amassando um jambo com as mãos, tal era o cheiro que exalava da "seção" de frutas do Mercado, repleto de jambos e mais jambos em cestas e mais cestas. À noite o chefe da redação abre uma sacola, tira um jambo e pergunta a alguém: "estão lavados?".

Ou seja, é só chegar o tempo de jambo, que ele se torna constante no dia-a-dia do paraense! Que o jambo é rico em ferro, proteínas e sei-lá-mais-o-quê todo mundo deve sabe, não estou aqui pra falar disso, quem quiser saber mais é só acessar a página da fruta na Wikipédia.

Não preciso dizer que adoro jambo. Creio que seja a fruta que eu mais gosto e também a que eu mais comi em toda a vida.

Quando crianças, meu irmão e eu sempre íamos com meu pai pro trabalho dele. Era numa sede campestre gigantesca do grupo Yamada, na Augusto Montenegro. "Três Corações". O lugar era cheio de campos de futebol, lagos artificiais, piscinas, mato e árvores de todo tipo. Logo na entrada, tínhamos um caminho enorme, ladeado de jambeiros, passávamos boa parte do nosso tempo por lá, em cima das árvores, apanhando e comendo jambos, dentre outras frutas.

Tive ótimos momentos com meu irmão nessa época. Horas e mais horas correndo, brincando, subindo em árvores, jogando bola sozinhos em campos de futebol enormes, nadando, "canoando", essas coisas que toda criança deveria fazer. E entre uma missão e outra, sempre tinha um jambo pra comer. Apanhávamos às dezenas, centenas! Comíamos até não aguentar mais e o restante levávamos pra casa, pra comer depois.

E, pra mim, é esse o gosto que o jambo tem: gosto de infância.

Gosto de nuvem... e de infância.

terça-feira, março 20, 2012

Renato Manfredini Jr - Casa velha, em ruínas...

"Zapeando" pela Wikipédia, deparei-me com a biografia do Renato Russo e a menção à uma certa redação, "Casa velha, em ruínas...", feita nos tempos de escola, quando ele ainda tinha perto de seis anos. O artigo falava que a redação estava "disponível na íntegra". Ora pois, fui atrás da dita cuja e achei o manuscrito que agora compartilho aos que, assim como eu, desconheciam-no...


Manuscrito retirado de Memorial Renato Russo (Site Oficial)

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Uma tarde em Cascais

Sempre tento dar alguma utilidade ao meus períodos de ócio, em verdade, quase nunca consigo. Hoje à tarde dedicava-me à essa infrutífera tarefa quando, sem mais nem porquê, me veio à cabeça o nome "Cascais'... Fica perto de Lisboa, Portugal. É um lugar belíssimo que, provavelmente, eu talvez nunca chegue a conhecer.

***


***

Por ruas e vielas da antiga Cascais,
No magro rosto um tímido sorriso,
Ia um moço franzino, passo indeciso,
Rumo ao mar nobre dos seus ancestrais.

Azul mar beijava as pedras do cais,
Embalava as traineiras com preciso
Balanço e enquanto, das aves, o riso,
Soava magano nos alvos areais.

Era a vila castiça! Vila formosa
Da costa do sol! Era a rubra rosa
Dos extensos jardins da egrégia Lisboa!

Inda o vejo passear na orla do mar,
Os seus olhos a sonhar....a sonhar...
E no bolso o tempo, que veloz se escoa.




Fontes:
Foto: "The Atlantic Ocean by the Guincho coast", disponível em Wikipédia/Wikimedia
Soneto: "Cascais" de Luís Santos, disponível em Luso-Poemas - Poemas, frases e mensagens

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Anansi e a história das histórias

Hoje, não sei bem o porquê, me veio à cabeça a história de Anansi, uma lenda africana deveras interessante. A mitologia africana tem várias divisões que variam em função das regiões, tribos, grupos linguísticos, étnicos etc. Pois bem, a lenda de Anansi é parte da chamada Mitologia Ashanti (África Ocidental / Gana). Essa lenda é parte do folclore africano e se difundiu nas Américas do Norte e Central através dos escravos provenientes dessa região africana.



A lenda conta a história de como Anansi trouxe as histórias para o mundo, e é mais ou menos assim...

Há muito tempo, o mundo era um lugar triste por não existirem histórias. Foi quando Anansi, a pequena (e esperta) aranha, decidiu tecer uma teia até o céu para comprar as histórias que Nyame, Deus do Céu, guardava em seu baú de ouro. Lógico que todos no céu debocharam de Anansi, achando seu pleito um tanto quanto absurdo. Para tentar demover Anansi de seu intento, Nyame estabeleceu um preço altíssimo, Anansi deveria trazer quatro das criaturas mais terríveis do mundo: Onini, a píton; Osebo, o leopardo; Mmboro, a vespa; e Moatia, o espírito que nunca foi visto pelos homens. Nyame e todos que estavam no céu surpreenderam-se pois, não só Anansi aceitou os desafios, como também disse que traria Ianysi, sua velha mãe como "brinde".

De volta à terra, Anansi contou com a ajuda da esposa Aso para tentar capturar as quatro criaturas. Pensaram, pensaram, confabularam alguns planos e foram à caça. Onini, a grande píton, seria a primeira... Pegaram um galho que media aproximadamente o tamanho de Onini, alguns cipós e foram para o rio onde Onini costuma ser vista. Lá chegaram em uma teatral discussão sobre o tamanho do galho em comparação ao tamanho de Onini que, por vaidade, deitou-se sobre o galho e deixou-se medir. Feito isso, Anansi usou os cipós para amarrá-la bem forte no galho. A primeira das quatro criaturas já estava sob o seu domínio.


Logo após, Anansi, com uma cabaça e água em uma folha de palmeira, foi até o ninho da Mmboro, a vespa que picava como o fogo. Ao chegar, Anansi jogou a água sobre si e para o alto simulando uma chuva e, argumentando que a água estagaria as asas da Mmboro, ofereceu à ela a cabaça que trazia consigo como abrigo. Fechou-as e já estava com duas das quatro tarefas cumpridas.

Quando encontrou Osebo, o leopardo dos dentes terríveis, Anansi usou de todo o seu ardil ao propor um jogo ao leopardo. O jogo consistia em amarrar e depois desamarrar o outro, quem conseguisse fazer isso em menos tempo seria o vencedor. Esperta e astuta como era, Anansi começou o jogo e, em poucos instantes, tinha Osebo atado pelas patas à uma árvore. Três de quatro, quase no fim.


O mais difícil foi encontrar um estratagem para lograr Moatia, o espírito que nunca fora visto pelos homens. Dizia-se que tais espíritos dançavam ao redor de certas flores. Assim, Anansi esculpiu um boneco em madeira e pediu à Aso que fizesse um inhame irresistível. Anansi deixou o prato de inhame a frente do boneco de madeira, que estava atado por cipós tal e qual uma marionete, além de estar coberto de um líquido pegajoso. Quando Moatia apareceu, ficou encantado com o inhame e pediu um pouco ao boneco que, manipulado pelos cipós, fez um sinal afirmativo. Ao terminar, Moatia tentou agradecer, mas o boneco não se mexia. Irritado com aquilo, ele deu um tapa no boneco e ficou com uma das mãos presa, tentou com a outra mão e esta também ficou presa... Quando mais tentava, mais Moatia ficava grudado ao boneco. A última presa for capturada.

De posse das quatro criaturas e de sua mãe, Anansi dirigiu-se à presença de Nyame que ficou pasmo e, ao mesmo tempo, perplexo com o quase impossível sucesso de Anansi. Com as quatro criaturas presas, Nyame não teve outra alternativa senão cumprir o que prometera. Entregou a Anansi o baú de ouro que continha todas as histórias do mundo dizendo: "O pequeno Anansi, trouxe o preço que pedi por minhas histórias, de hoje em diante, e para todo o sempre, elas pertencem a ele e serão chamadas de histórias do Homem Aranha! Cantem em seu louvor!"

E essa, meus caros, é história de como todas as histórias chegaram ao conhecimento do mundo...




Fontes:
Anansi - Wikipédia, a enciclopédia livre
Anansi - Wikipedia, the free encyclopedia
Mitologia ashanti ____
Falando de Fantasia: Anansi

Imagens:
"Ananse-the-Spider" e "Ananse-and-the-Tiger" de Naomi Frances

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Eu vi um menino...


Eu vi um menino que, de tão péssimo, às vezes, fazia-se necessário amarrá-lo para sossego alheio...
Eu vi um menino brincar com um barco de papel numa poça de água da chuva...
Eu vi um menino muito inteligente, que desenhava maravilhosamente bem e começou a ler muito cedo...
Eu vi um menino que morava em uma casa com muro amarelo e passava as férias na praia...

Eu vi um menino que subia em árvores, atirava de baladeira e jogava peteca, mas era péssimo com pipas...
Eu vi um menino que escondeu mais segredos, dores e rancores do que o seu rosto podia mascarar...
Eu vi um menino que era bom em tudo que fazia, menos em acreditar em si mesmo...
Eu vi um menino chorar escondido por anos, até que pudesse chorar na frente de outrem...

Eu vi um menino que adorva a comida da mãe, principalmente a carne assada e feijão com macarrão...
Eu vi um menino que odiava os irmãos, mas odiava mais ainda ficar longe deles...
Eu vi um menino que gostava de tudo que o pai gostava, porque queria ser igual a ele...

Eu vi um menino que não se tornou arquiteto, nem enegenheiro, nem piloto, nem nada do que queria ser...
Eu vi um menino que se perdeu no meio do caminho, se perdeu tanto que não podia mais voltar...
Eu vi um menino que creceu, cresceu e morreu, mas ainda vive na minha lembrança, correndo de lá pra cá...


sexta-feira, janeiro 27, 2012

Autólogos: conversando com um homem sentado na chuva


Um sábado desses aí, lá pelas 14 h, popularmente conhecida como "duas da tarde", a nossa conhecidíssima chuva da tarde antecipou o seu horário. Como estava a ir pra casa e não tinha nada nos bolsos (que pudesse estragar com a água) resolvi aproveitar o banho de chuva. Há tempos que não me largava a este deleite.

Andava sem pressa, a aproveitar a chuva, quando passei em frente à casa de um amigo. É uma construção pequena, uma casa situada no limite do terreno, bem atrás e com um amplo espaço a frente. Já o conheço ha algum tempo, mas o vejo muito pouco, antes tínhamos uma relação mais estreita, mas hoje em dia, por algum motivo, pouco nos falamos.

Não sei o porquê de ter olhado pelo portão, eu sabia de antemão que ele quase nunca estava em casa mas, pra minha surpresa, justamente nesse tarde, nesse dia e nessa chuva, ele estava lá. E o mais estranho: sentado sobre dois tijolos (em forma de T) a alguns passos da porta de entrada, sozinho, na chuva. Achei o fato deveras estranho.

O estreito portão vermelho, encravado num alto muro de lajotas de um azul bem escuro, estava apenas enconstado. Abri-o com o mais absoluto cuidado e caminhei pausadamente até ficar a uns três ou quatro passos de distância dele. Ele estava com uma bermuda jeans, as pernas afastadas e os cotovelos apoiados sobre os joelho, a cabeça baixa. Fiquei a observar durante alguns segundos quando, para minha surpresa, ele disse "E aí Magno, tudo beleza?", sem nem ao menos ter se virado ou, sequer, se mexido. Fiquei pasmo e, ao mesmo tempo, perplexo. Continuei parado e em silêncio. Ele se virou, com os olhos muito vermelhos, o cabelo pingando sobre a testa e um sorriso forçosamente amistoso que deixava transparecer uma angústia sem tamanho e disse, com uma voz rouca: "Sabia que era tu... não me pergunta como, mas eu sabia...". Aproximei-me e sentei em uma parte cimentada do chão ao lado dele e, durante um bom tempo, ficamos sem trocar uma só palavra.

O silêncio era quase absoluto, ouvia-se apenas o barulho da chuva. Concentrei-me nesse barulho, aparentemente uno, e pude distinguir os seus vários sons, tal qual uma orquestra em harmonia: A chuva que caía diretamente sobre a terra faziam um som diferente do que a chuva que caía nas pequenas poças de água já formadas; o som produzido com o choque com a parte cimentada era semelhante, porém menos impactante, que o som da água que escorria do telhado... e tinha o mais diferente de todos, a chuva que caía direto no telhado. Os sons iam e vinham, ora a se misturar, ora a se separar... a fluir, escorrer, cair e ressoar. Durante o que pareceu uma eternidade fiquei nesse estado contemplativo-meditativo.

Foi ele que primeiro rompeu o silêncio.

"Magno, essa casa tem, aproximadamente, uns quatro metros e meio de largura..."

No que ele disse isso, me pus a avaliar a casa: uma porta com quatro lajotas de largura, distante três lajotas do limite direito e oito do limite esquerdo, e uma janela no espaço central entre a porta e o limite esquerdo, quinze lajotas no total, lembrei de que cada lajota mede uns 30 cm e fiz as contas... 450 cm, ou seja, os quatro metros e meio que ele "chutou". Mas, em verdade, acho que ele já sabia a largura.

Pouco depois a chuva amainou, eu me despedi, ele retribuiu e eu fui embora, olhei pra trás e ele continuava imóvel. Ao chegar no portão a chuva parou, mas eu pude ouvir aqueles sons durante dias. Ainda hoje, se me esforçar, creio que posso ouví-los. Eles ficaram em algum lugar dentro de mim, não sei onde, mas ficaram.





Imagem: "Sitting In The Rain" de Pete Simon, disponível no Flickr

terça-feira, janeiro 17, 2012

Diana Nobre - Do trabalhador dócil ao devir-animal: um viver ético, estético e político em "A Metamorfose" de Franz Kafka

Através do método genealógico de Michel Foucault, este trabalho busca ser um campo de problematizações em torno da questão do trabalho imerso na obra A Metamorfose (2008) de Franz Kafka. Com isso, esta análise percorre desde a docilidade do caixeiro viajante Gregor Samsa até o seu devir-animal, em que se mostra metamorfoseado em barata.

Para tanto, partindo das pistas genealógicas de Michel Foucault, a análise da docilidade de Gregor é discutida através da tríade saber-poder-subjetivação, que estão imanentes na sua organização de trabalho, subjetivando-o, constituindo-o enquanto corpo dócil. Todavia, o caixeiro viajante Gregor encontra linhas de fuga que o fazem resistir às malhas microfísicas de poder deste trabalho, provocando assim rupturas nas mesmas. É neste momento, que discutimos sobre o processo de devir-animal de Gregor, através de Deleuze e Guattari (1997).

Além disso, esse devir-animal é problematizado, através da contribuição de diversos autores, enquanto afirmação do paradigma ético, estético e político, pois, é notório o quanto, a partir de sua metamorfose, Gregor se mostra ao mundo como obra de arte. Nestes termos, através de seu devir animal, Gregor Samsa afirma, diante da vida, o quanto é possível o processo de resistência e rupturas frente às cristalizações das organizações de trabalho. Haja vista que, conforme nos propõe Foucault (1988), onde há poder existe possibilidade de resistência.

Diana Nobre (2011)


Amores filosóficos


Achei o Hegeliano muito massa, creio que dá certo!!

quinta-feira, janeiro 12, 2012

No dia em que perdi meu sorriso (Haikai)


No dia em que perdi meu sorriso
Choveu até o céu escurecer
E ainda hoje, eu espero ele clarear

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