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terça-feira, fevereiro 14, 2012

Anansi e a história das histórias

Hoje, não sei bem o porquê, me veio à cabeça a história de Anansi, uma lenda africana deveras interessante. A mitologia africana tem várias divisões que variam em função das regiões, tribos, grupos linguísticos, étnicos etc. Pois bem, a lenda de Anansi é parte da chamada Mitologia Ashanti (África Ocidental / Gana). Essa lenda é parte do folclore africano e se difundiu nas Américas do Norte e Central através dos escravos provenientes dessa região africana.



A lenda conta a história de como Anansi trouxe as histórias para o mundo, e é mais ou menos assim...

Há muito tempo, o mundo era um lugar triste por não existirem histórias. Foi quando Anansi, a pequena (e esperta) aranha, decidiu tecer uma teia até o céu para comprar as histórias que Nyame, Deus do Céu, guardava em seu baú de ouro. Lógico que todos no céu debocharam de Anansi, achando seu pleito um tanto quanto absurdo. Para tentar demover Anansi de seu intento, Nyame estabeleceu um preço altíssimo, Anansi deveria trazer quatro das criaturas mais terríveis do mundo: Onini, a píton; Osebo, o leopardo; Mmboro, a vespa; e Moatia, o espírito que nunca foi visto pelos homens. Nyame e todos que estavam no céu surpreenderam-se pois, não só Anansi aceitou os desafios, como também disse que traria Ianysi, sua velha mãe como "brinde".

De volta à terra, Anansi contou com a ajuda da esposa Aso para tentar capturar as quatro criaturas. Pensaram, pensaram, confabularam alguns planos e foram à caça. Onini, a grande píton, seria a primeira... Pegaram um galho que media aproximadamente o tamanho de Onini, alguns cipós e foram para o rio onde Onini costuma ser vista. Lá chegaram em uma teatral discussão sobre o tamanho do galho em comparação ao tamanho de Onini que, por vaidade, deitou-se sobre o galho e deixou-se medir. Feito isso, Anansi usou os cipós para amarrá-la bem forte no galho. A primeira das quatro criaturas já estava sob o seu domínio.


Logo após, Anansi, com uma cabaça e água em uma folha de palmeira, foi até o ninho da Mmboro, a vespa que picava como o fogo. Ao chegar, Anansi jogou a água sobre si e para o alto simulando uma chuva e, argumentando que a água estagaria as asas da Mmboro, ofereceu à ela a cabaça que trazia consigo como abrigo. Fechou-as e já estava com duas das quatro tarefas cumpridas.

Quando encontrou Osebo, o leopardo dos dentes terríveis, Anansi usou de todo o seu ardil ao propor um jogo ao leopardo. O jogo consistia em amarrar e depois desamarrar o outro, quem conseguisse fazer isso em menos tempo seria o vencedor. Esperta e astuta como era, Anansi começou o jogo e, em poucos instantes, tinha Osebo atado pelas patas à uma árvore. Três de quatro, quase no fim.


O mais difícil foi encontrar um estratagem para lograr Moatia, o espírito que nunca fora visto pelos homens. Dizia-se que tais espíritos dançavam ao redor de certas flores. Assim, Anansi esculpiu um boneco em madeira e pediu à Aso que fizesse um inhame irresistível. Anansi deixou o prato de inhame a frente do boneco de madeira, que estava atado por cipós tal e qual uma marionete, além de estar coberto de um líquido pegajoso. Quando Moatia apareceu, ficou encantado com o inhame e pediu um pouco ao boneco que, manipulado pelos cipós, fez um sinal afirmativo. Ao terminar, Moatia tentou agradecer, mas o boneco não se mexia. Irritado com aquilo, ele deu um tapa no boneco e ficou com uma das mãos presa, tentou com a outra mão e esta também ficou presa... Quando mais tentava, mais Moatia ficava grudado ao boneco. A última presa for capturada.

De posse das quatro criaturas e de sua mãe, Anansi dirigiu-se à presença de Nyame que ficou pasmo e, ao mesmo tempo, perplexo com o quase impossível sucesso de Anansi. Com as quatro criaturas presas, Nyame não teve outra alternativa senão cumprir o que prometera. Entregou a Anansi o baú de ouro que continha todas as histórias do mundo dizendo: "O pequeno Anansi, trouxe o preço que pedi por minhas histórias, de hoje em diante, e para todo o sempre, elas pertencem a ele e serão chamadas de histórias do Homem Aranha! Cantem em seu louvor!"

E essa, meus caros, é história de como todas as histórias chegaram ao conhecimento do mundo...




Fontes:
Anansi - Wikipédia, a enciclopédia livre
Anansi - Wikipedia, the free encyclopedia
Mitologia ashanti ____
Falando de Fantasia: Anansi

Imagens:
"Ananse-the-Spider" e "Ananse-and-the-Tiger" de Naomi Frances

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Mitologia Guarani

A figura primária na maioria das lendas guaranis da criação é Iamandu (ou Nhanderu ou Tupã), o deus Sol e realizador de toda a criação. Com a ajuda da deusa lua Araci, Tupã desceu à Terra num lugar descrito como um monte na região do Aregúa, Paraguai, e deste local criou tudo sobre a face da Terra, incluindo o oceano, florestas e animais. Também as estrelas foram colocadas no céu nesse momento.

Tupã então criou a humanidade (de acordo com a maioria dos mitos Guaranis, eles foram, naturalmente, a primeira raça criada, com todas as outras civilizações nascidas deles) em uma cerimônia elaborada, formando estátuas de argila do homem e da mulher com uma mistura de vários elementos da natureza. Depois de soprar vida nas formas humanas, deixou-os com os espíritos do bem e do mal e partiu.

Primeiros humanos
Os humanos originais criados por Tupã eram Rupave e Sypave, nomes que significam "Pai dos povos" e "Mãe dos povos", respectivamente. O par teve três filhos e um grande número de filhas. O primeiro dos filhos foi Tumé Arandú, considerado o mais sábio dos homens e o grande profeta do povo Guarani. O segundo filho foi Marangatu, um líder generoso e benevolente do seu povo, e pai de Kerana, a mãe dos sete monstros legendários do mito Guarani (veja abaixo). Seu terceiro filho foi Japeusá, que foi, desde o nascimento, considerado um mentiroso, ladrão e trapaceiro, sempre fazendo tudo ao contrário para confundir as pessoas e tirar vantagem delas. Ele eventualmente cometeu suicídio, afogando-se, mas foi ressuscitado como um caranguejo, e desde então todos os caranguejos foram amaldiçoados para andar para trás como Japeusá.

Entre as filhas de Rupave e Sypave estava Porâsý, notável por sacrificar sua própria vida para livrar o mundo de um dos sete monstros legendários, diminuindo seu poder (e portanto o poder do mal como um todo).

Crê-se que vários dos primeiros humanos ascenderam em suas mortes e se tornaram entidades menores.

Os sete monstros legendários
Kerana, a bela filha de Marangatu, foi capturada pela personificação ou espírito mau chamado Tau. Juntos eles tiveram sete filhos, que foram amaldiçoados pela grande deusa Arasy, e todos exceto um nasceram como monstros horríveis. Os sete são considerados figuras primárias na mitologia Guarani, e enquanto vários dos deuses menores ou até os humanos originais são esquecidos na tradição verbal de algumas áreas, estes sete são geralmente mantidos nas lendas. Alguns são acreditados até tempos modernos em áreas rurais. Os sete filhos de Tau e Kerana são, em ordem de nascimento:
* Teju Jagua, deus ou espírito das cavernas e frutas
* Mboi Tu'i, deus dos cursos de água e criaturas aquáticas
* Moñai, deus dos campos abertos. Ele foi derrotado pelo sacrifício de Porâsý
* Jaci Jaterê, deus da sesta, único dos sete a não aparecer como monstro
* Kurupi, deus da sexualidade e fertilidade
* Ao Ao, deus dos montes e montanhas
* Luison, deus da morte e tudo relacionado a ela


Delavadamente copiado de Fonte: Mitologia guarani - Wikipédia

terça-feira, dezembro 14, 2010

Deus e Dostoiévski

"[...] em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruido-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situacão"

ou seja,
Não existindo Deus, tudo seria permitido?

(Parêntesis)
Um dia eu pensei que se, por algum elemento misterioso, toda humanidade fosse extinta e, séculos, milênios a frente, surgisse uma nova humanidade. Será que se eles encontrassem os meus gibis da Liga da Justiça achariam que eles eram deuses ancestrais?
(Fim do parêntesis)

Continuando:
"Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito."

Desculpem-me os deístas, mas eu não consigo "ver" Deus como vocês...

Trechos extraídos de "Irmãos Karamazovi" (1879).
Imagem: Retrato de Fiódor quando jovem, por Trutovsky (1847).