terça-feira, julho 31, 2012

Rotineiricidades #6 - Andando de ônibus

"Rotineiricade" é um termo que, do fundo do coração, penso ter sido criado por mim. Criei-o com o intuito de descrever, sob uma holística diferenciada, certos eventos do cotidiano. Surgiu de algumas variações e junções das palavras "rotina" e "cidade" enquanto escrevia, um dia desses, em um certo bar na Rua do Horto. Pois bem, acho que isso não interessa, vamos à rotineiricidade da vez...

Depois da última mudança (de residência), andar de ônibus passou a ser um pequeno deleite, pelo fato de morar perto do final da linha do ônibus, ele sempre conseguia um bom lugar do lado da janela pra sentar e, de imediato, quedava-se naquela cruel dúvida diária: ler ou dormir. Eu sempre o ouvia dizer: "qualidade de vida pro pobre é morar perto do fim da linha do ônibus!", e ele aproveitava essa "qualidade de vida" entretendo-se entre essas duas paixões, a onírica e a literária. Acho que se pudesse ler enquanto dorme, considerar-se-ia conquistando a magna bem-aventurança!

Ontem, por exemplo, chegou a abrir o livro, mas ao primeiro parágrafo as pestanas pesaram e ele dormiu por todo o trajeto até o trabalho. Hoje, não obstante ao fato de ter dormido apenas 3 horas, estava sem sono. Sentou-se, leu dois capítulos de "On the road", do Jack Kerouac e ficou a remoê-los mentalmente, pra assimilar melhor a intensa narrativa. Das viagens de Sal Paradise, ele traçou um paralelo com as suas próprias viagens, muito embora nunca tenha feito nada parecido. Considerava como "viagens" as suas idas e vindas e viradas pessoais. Em apenas um ano, tinha tido tantas reviravoltas que pensou consigo mesmo, relembrando "Vinte e Nove"... "Quantas mortes ainda terei pela frente até que os vinte e nove anjos me apareçam?"

Como já havia abandonado a leitura e a cabeça arrastava-o em um turbilhão de lembranças, mesmo querendo, não conseguiu dormir. Encostou a cabeça na janela e começou a observar as pessoas. Em verdade, observar sem observar, via-os e, no mesmo instante, já não poderia dizer se olhara um homem ou uma mulher ou uma criança ou um dinossauro. E, pensando em dinossauros, veio-lhe à mente a última vez em que falara com o seu pequeno Yoshi...

(parentêsis)
...
(fim do parêntesis)

A conversa começou como todas as outras, o Yoshi dizia um "Oi pai!", bem rápido, parecendo alegre mas repleto de uma tristeza represada, no que ele respondia dizendo "Oi Yoshi!", no mesmo tom fingidamente alegre e calmo. Conversariam sobre qualquer coisa, a chuva, a praça e os pombinhos que fugiam assustados, uma professora da escola, um brinquedo, um desenho ou um filme legal, ambos segurando os próprios sentimentos. (Porque fazer isso?!?!). Em dado momento, quando um ou outro não mais pudesse se conter a "garotinha cega" entraria na conversa, ele sempre se preocupava mais com a saudade dela do que a sua própria: "Pai, a Toph quer falar contigo...". E daí em diante ele passaria alguns momentos voando e saboreando aquela doce voz que só repetia "Oi pai!", mas de forma bem diferente do outro, uma forma verdadeiramente alegre e apaixonada, não que o outro não o fosse! Ao contrário... Éramos (e ainda somos), os três, extremamente apaixonados, creio apenas que ele entendia a distância, ela não...

O ônibus parou na Praça Brasil, Senador Lemos com D. Pedro II, e só então ele percebeu que uma torrente de lágrimas descia-lhe pelo rosto, algumas pessoas passavam pela roleta e olhavam curiosas, outras não percebiam, uma senhora de idade, que estava na rua, deitou-lhe um olhar com tal benevolência que parecia ter lido todas as angústias que a trilha de lágrimas do seu rosto diziam.

Enxugou as lágrimas, recompôs-se, sem muito sucesso, desceu e entrou no trabalho. Estava exatamente uma hora atrasado.


sexta-feira, junho 08, 2012

Batalhas interiores - Palgon

Ele chegou ao hades em meio aquele lusco-fusco de fim de tarde. Fazia um calor agradável.

Ao escurecer, as nuvens estavam espessas, tão espessas que ele pode sentar-se, de pernas cruzadas, sobre um amontoado delas, eram stratocumulus, as melhores pra os que são dados à meditação em nuvens. Ele era um desses atípicos. A noite veio e trouxe junto um frio glacial. Seu corpo desnudo era constantemente açoitado por rajadas de um vento gelado e sibilante. A lua estava de uma beleza assombrosa e ele concentrou-se nas sombras das nuvens projetadas na superfície, as mais diversas formas moviam-se pelo solo, mesclando-se, desmanchando-se, inconstantes sempre, como os seus pensamentos volitantes. Geômetras, fractais, espirais, todo tipo de forma, milhares de mundos e possibilidades iam e vinham, tal e qual e tantos quantos as sombras das nuvens.

E assim as horas se foram.


De repente, uma dificuldade em concentrar-se no exercício causou-lhe um desconforto, a princípio inóxio, mas que começou a evoluir quando os faunos anunciaram a chegada da hora do búfalo. Por essa hora a lua já havia abandonado o seu manto dourado e (re)vestia-se de um branco marmóreo o que tornava o contraste entre as sombras e a claridade mais acentuado, quase vivo. Quando as nuvem e, consequentemente, suas sombras cobriram o firmamento o desconforto mostrou sua verdadeira forma, saiu de seu corpo e sentou-se defronte. Ao sentar-se, de igual forma (pernas cruzadas e postura ereta), sob uma lacuna de luminosidade deixada por uma brecha nas nuvens, pode vê-lo nitidamente: era alto, muito alto, magro e branco, com olhos e boca finos, cabelos esvoaçantes e seu corpo refletia a etérea luz do luar.

Ambos permaneceram de cabeça baixa, não se miravam diretamente.Quando outro fauno soou o sinal referente à hora do tigre, o demônio olhou-o de forma solene e apresentou-se:
- Os vivos chamam-me de Palgon... E vós, como sois chamado por eles?
- Vieste de minhas entranhas, sei que estiveste um bom tempo a andar comigo, não preciso dizer-te meu nome. Sabe-o muito bem.

Fez-se novamente silêncio enquanto eles se encaravam e, cada vez mais, a angústia crescia-lhe no estômago e subia-lhe. Peito, garganta, boca e olhos. Tremia febrilmente sem saber se essa angústia, que agora lhe tomava conta, emanava de Palgon ou de si próprio. Seus olhos, até então apenas marejados, irromperam em lágrimas e um gritou que acordaria até o próprio deus, brotou-lhe da garganta. Sentiu-se ligeiramente melhor, parece que agora tinha armas contra aquela batalha silenciosa e, não obstante ao fato de estar sendo derrotado, era bem melhor lutar que entregar-se passivamente. Entregar-se-ia ao demônio da solidão mas não sem luta.

As lágrimas continuaram a brotar, vindas do seu próprio desespero, alimentadas por ele, os gritos ficaram mais fracos e dados a intervalos cada vez maiores de tempo. A nuvem, que servia-lhes de tatame e, ao mesmo tempo, campo de batalha, dissolvia-se ao entrar em contato das lágrimas e isso o deixou apavorado. Em meio a tudo isso, Palgon mantinha um sorriso no rosto e arredava um mecha de cabelo da frente dos olhos.

Já não podia mais encarar Palgon de frente. As dores abdominais fizeram com que se curvasse, chegando ao ponto de tocar a testa nas pernas cruzadas. E chorava, chorava como uma criança perdida, uma cria abandonada, um órfão. As lágrimas continuavam a dissolver a nuvem e ele não conseguia se concentrar para manter a nuvem sólida o bastante para permanecer em segurança. Sabia que não resistiria à queda. Palgon, por outro lado, parecia que flutuava a milímetros de distância da nuvem e, mesmo que caísse, provavelmente não se machucaria.

Toda a luta parecia em vão, malhava em ferro frio. Estava cada vez mais fraco e esgotado. Passava da metade da hora do tigre e ele sabia que a luta findaria junto com essa hora. Temia o seu desfecho. Quem venceria? Palgon era a escolha óbvia, estava mais forte e aparentemente preparou-se para tal embate.

Ele passou a apenas se defender, mesmo sem saber como. Quanto mais era fustigado pelas investidas imóveis e silenciosas de Palgon, mais tremia. O vento, as lágrimas e Palgon, tudo fazia com que sua pele gelasse. Tremia pra se aquecer, abandonou a postura meditativa e pôs-se em posição fetal. Assim esperou o fim, o derradeiro ataque do demônio da solidão.

Nesse momento, no fim da hora do tigre, ao abandonar por completo as esperanças, sentiu o frio amainar. Continuava vivo. Piscou várias vezes. Não acreditava na cálida sensação que agora lhe nascia. Desvencilhou-se do nó que dera em seu próprio corpo. Sentiu o calor do sol, dos seus primeiros raios. Levantou-se ainda em tempo de ver Palgon abandonar o sorriso e evaporar junto com a luz do dia.

E amanheceu... Sempre amanhece.


segunda-feira, maio 21, 2012

Rotineiricidades #5 - Escrevendo no almoço

O cansaço se lhe fez insuportável e, nesse estado, aquele banho se lhe afigurou tal e qual uma satisfação sexual, parecia que derretia, que gozava, ejaculando-se e escorrendo-se junto com a água fria que caía abundantemente. Quando voltou à cama encontrou-a em um estado de semiconsciência, dormitando como uma criança exausta. Deitou-se bem devagar para não acordá-la. Abraçou-a por trás, encaixando-se perfeitamente no seu corpo esguio. Ela deu mostrar de querer acordar e ele prendeu a respiração sem fazer movimento algum. Esperou um pouco e respirou bem fundo, depois beijou-a na nuca e sussurrou-lhe algo que só foi ouvido nos seus sonhos.



sábado, maio 19, 2012

Um grande berço


Por essa época eu era dado à meditação e, como dispunha de bastante tempo livre, dispendia incontáveis horas nesse deleite. Sentado, costas eretas, pernas cruzadas. Sentava na areia, bem perto da linha d'água da Praia do Atalaia, sempre virado de frente pro sul. Gostava de ter a maré às costas, era como se soubesse que nada me distrairia daquele lado, apenas o marulho com aquele ritmo cadenciado. Dessa forma eu tentava me abstrair e me largar às meditações.

Pois bem! Estava eu a meditar naquela manhã simplesmente linda. Céu de Brigadeiro. O vento, sempre forte, batia-me à esquerda e os raios do sol vinham da mesma direção. A praia estava praticamente deserta, fora de temporada. Já estava quase mergulhado naquele mundo particular, dentro da minha cabeça quando, meio que do nada, o barulho de um casal de crianças me trouxe de volta. Distavam cerca cem metros de mim e caminhavam com a alegria de crianças que, ao invés de ir à aula, foram "obrigadas" a pegar uma praia. Daí em diante, pus-me a observá-los e vi uma cena que, ainda hoje, lembro com uma clareza absurda.


As crianças se pareciam bastante, o garoto parecia ter dois ou três anos a mais que a garota. Brincavam distraidamente num pequeno lago, desses que se formam quando a maré começa a secar. Fiquei a observar o ir e vir deles durante um bom tempo, corriam de um lado a outro, brincavam em diversos lagos, corriam até o mar e voltavam e, nesse ponto, pude vê-los mais de perto. Olharam-me de relance, em momentos distintos: o garoto sorria com os lábios, mas deixava passar uma tristeza muito grande no olhar; ela era quase o oposto, se é que posso assim dizer, mantinha os lábios numa expressão retilínea, sem demonstrar emoção alguma, mas emanava um calor do olhar que parecia querer fazer frente ao próprio sol.

Não sei quanto tempo ficaram nesse ir e vir até que se deu o ocorrido:
Começaram aquela brincadeira de girar segurando um ao outro pelas mãos. Nunca brinquei disso, sempre achei deveras perigoso mas, pelo jeito, eles gostavam. E muito. Giravam e giravam, estavam cada vez mais rápido, giravam, gritavam e riam, parecia (de longe) muito divertido. Daí começaram a ceder e diminuir o ritmo, até parar. Sentaram. Deitaram e riram alto, muito alto. Depois recomeçaram...
Dessa vez foi diferente. Quando estavam quase parando, ele soltou as mãos dela. Não consigo imaginar o que o tenha impelido a fazê-lo, mas ele fez: soltou-a. Ou melhor, soltou-se dela. Ambos caíram violentamente, em direções opostas. Ela caiu na água e bateu as costas em uma pedra. Ele caiu no seco, ralou-se no chão e os olhos encheram-se de areia.
Ambos choravam, cada um no seu lado, cada um com seus machucados.
Ela pôs-se de pé primeiro, mas o machucado das costas a impediu de andar por alguns instantes. Ela começou a conter o choro e ficou olhando o garoto que ainda se mantinha no chão, tanto por conta das escoriações quanto pelo fato de não poder abrir os olhos. Com a voz entrecortada pelo choro, ele pedia ajuda, não conseguia ver nada, queria que ela o ajudasse a levantar e lavar os olhos. Ele berrava pedidos de desculpa, mas eles chegavam ao semblante da garota sem produzir efeito algum, tal qual a minúscula marola que se chocava contra as pedras que a feriram.
Ela, por outro lado, já chorando baixinho, parecia estar tentando entender o porquê daquilo tudo. Não havia motivo para soltá-la, já estavam diminuindo, parariam em breve e, caso ele quisesse parar, bastava pedir e ambos parariam de imediato, sem precisar daquilo.
Pode ter sido imaginação minha, mas pude sentir o cheiro da tensão e da amargura deles sendo trazido pelo vento, junto com o salito.
Por um tempo ela só observou, em silêncio, contendo as lágrimas. Mas, não obstante à raiva latente, aproximou-se dele e estacou, fazendo sombra, de tal modo que o rosto dele ficasse abrigado do sol na sua sombra. De imediato ele se acalmou e também parou de chorar, virou-se e sentou, com as pernas cruzadas, sabendo que ela estava bem à sua frente, mas com os olhos ainda fechados, sem poder vê-la.
E ficaram assim. Parados, como jogadores de xadrez esperando o movimento alheio. Respirando fundo, mais sentindo do que vendo um ao outro.
Nesse momento, uma onda quebrou e me desviou da cena. Virei o rosto muito rápido, sem perceber que a luz do sol viria direto nos meus olhos. Minha visão turvou por alguns instantes. Estava prestes a poder ver de novo quando ouvi um barulho vindo de trás, virei e vi uma gaivota voando carregando um peixe em forma de guitarra na boca. Quando me voltei à cena, os pais já estavam conduzindo as crianças pra casa. O garoto caminhava com dificuldade abraçado à cintura da mãe que o consolava. A garota parecia bem relaxada no colo do pai, com os braços em torno do pescoço dele, abraçando-o. E assim eles se foram, fazendo o caminho de volta afastados.
Até hoje eu imagino o que aconteceria se Édipo e Electra continuassem lá, sem a intervenção de ninguém, sozinhos com seus sentimentos de criança.



Fotos: Pedro Filho e Maurício de Abreu (Panoramio)


sexta-feira, maio 11, 2012

Hades

Tenho um carinho todo especial pelo "Hades", a casa que atualmente moro... Sempre ando com um caderninho que é o meu "blog offline", tenho alguns textos nele, contos, crônicas, poesia e alguns desenhos... Mas ainda não descobri o porquê de não publicar nada que tá escrito lá...

Este piccolo poema é a primeira construção que deixa esse caderno... É, como disse, um texto cheio de um carinho todo especial pela minha atual morada... Foi escrito dia 18 de fevereiro. Já faz um tempinho!

***

Moro onde os mortos habitam
Rio-me de todos os demônios
Basta que eu simplesmente queira
Para que todos fechem-se em si mesmos

***


terça-feira, maio 08, 2012

Rotineiricidades #4 - O ritmo da chuva

O relógio marcava 19h19.

Depois de uma noite complicada quase sem dormir e um dia extremamente corrido no trabalho, o cansaço e a fadiga começam a tomar conta do corpo. O clima frio da redação faz com que o sono pareça um carinhoso toque de mãe, ele começa a dar mostras de que vai dormir ali mesmo, sentado. Ele então pega um livro da mochila, "Ereções, ejaculações e exibicionismos - Parte 1: Crônica de um amor louco", de Charles Bukowski, entretanto, a falta de concentração advinda do sono faz com que só consiga ler dois contos: "3 mulheres" e "10 punhetas".

Ele fecha o livro, deixa sobre a mesa e caminha calma e distraidamente por toda a extensão da redação. A pausa entre o fechamento de um caderno e o início de outro dá-lhe essa momentânea folga. Em verdade, andar tem uma dupla finalidade, afastar o sono e manter-se aquecido. Foi à copa na esperança de encontrar um café quente, pura ilusão.

A sala de reuniões chamou-lhe atenção, não percebera, até agora, que chovia torrencialmente. O barulho da chuva que entrava pela única janela que ficava aberta era isolado pelas paredes paralelas de gesso da sala de reuniões. Acendeu as luzes e caminhou até a janela. O barulho teve um efeito quase que hipnótico sobre ele, esqueceu o sono, o cansaço e andou até ficar encostado à janela. Os pingos da chuva que molhavam o seu rosto eram como agulhas de gelo e, de imediato, ele correu a janela de vidro, fechando-a. O silêncio foi perturbador, abriu-a de novo e ficou a observar a chuva, não obstante ao frio deveras incômodo dos respingos. Acabou por entrar em um estado de contemplação sem par. Horas se passaram dentro daqueles poucos minutos e, por fim, saciado daquele estranho fetiche, fechou a janela, apagou as luzes, voltou à redação e pôs-se a escrever...

O relógio, agora, marcava 19h36.



sexta-feira, abril 13, 2012

O Menino e o Velho

Ainda hoje, 20 anos depois, às vezes me pego a lembrar desse amigo que tive, mesmo que por pouco tempo, quando criança... É uma lembrança tão boa e estranha quanto impossível e inexplicável. Na época, quando eu contava esse caso, ninguém acreditava, diziam que era mentira, coisa de criança, uns mais alterados diziam que era visagem, outros diziam que era esquizofrenia, disseram de tudo. Não sei. Mas sei que foi algo mais ou menos assim...

Sempre viajávamos nas férias de julho, meus pais, meu irmão dois anos mais novo, minha irmã dois anos mais velha e eu. Eu adorava essas férias na praia, adorava mesmo. Nesse mês de julho, porém, não lembro o porquê, nós não viajamos.

Acabáramos de nos mudar pro bairro de Canudos, pra uma rua chamada - lembro-me muito bem - "Segunda de Queluz" (nunca conheci a "Primeira" e nem soube se havia uma "Terceira de Queluz"). Pois bem, meu irmão e eu ainda éramos estranhos a todos na rua, brincávamos sempre juntos num pequeno pátio que era separado da calçada por um baixo muro amarelo.

Todos os dias olhávamos os outros garotos a brincar na rua. Todos menos um. Havia uma casa, no outro lado da rua, há umas 6 casa de distância, de madeira e bem velha, com mato alto na frente, quase na altura da janela. Janela essa em que sempre estava aberta e ocupada por esse garoto. Debruçado e sempre com um olhar triste e vago, meio que perdido em lembranças e pensamentos. Era uma figura que transparecia uma curiosidade natural. Aparentava ter a minha idade: 7 anos.

Logo nos enturmamos e saímos do limite do muro amarelo. E já as mais diversas brincadeiras fluíam como se todos da rua se conhecessem desde sempre. Travinha, paredão, pira-maromba, taco, polícia-e-ladrão e por aí vai. E aquele garoto continuava lá, sempre debruçado na janela. Sempre pensativo.

Certa vez, três dos garotos não apareceram (todos irmãos) e, como eram sempre eles que puxavam as brincadeiras, a maioria de nós voltou pra casa. Meu irmão entrou em casa e foi assistir à "Sessão da tarde", acho que estava a passar "A Lagoa Azul" e eu, como já havia assistido o filme, fiquei sentado no muro amarelo. Uma rápida olhada e um fato me chamou a atenção: o garoto misterioso não estava na janela. Pulei do muro e comecei a andar, meio que como quem não quer nada, na direção da casa dele, encontrei-o sentado, sobre um amontoado de tábuas no chagão que levava ao quintal. Olhamo-nos rapidamente e ele sorriu, achei deveras estranho, parei por instantes e sorri de volta. Continuei até chegar à esquina da Roso Danin. Na volta ele estava na posição habitual, à janela.

- Ei! Como te chamas?
- Magno... eu moro ali naquela casa de muro amarelo.
- Meu nome é Mateus, eu moro aqui...
- É, eu sei, sempre te vejo aí na janela...

Ele abriu a porta e sentou na soleira, eu me aproximei e começamos a conversar, ficamos lá até o início da noite. Foi uma conversa bem legal e, apesar ter a mesma idade que eu, ele aparentava ter mais, falava como alguém que conhecia bem as coisas. Ele, de fato, conhecia muitas coisas, morava só com o avô e, pelo jeito, mudavam bastante de casa. Ele me contou que saíra de Manaus bem pequeno, moraram no Maranhão por uns tempos e, em Belém, Canudos já era o quarto bairro diferente, ele e o avô mudavam muito.

Conversávamos sobre muitas coisas, mas o que me chamava a atenção eram, principalmente, principalmente, principalmente mesmo, os dinossauros. Ah, os dinossauros!! Não sei como (e nem onde) ele aprendeu tanto sobre dinossauros, mas ele sabia tudo sobre dinossauros. Tudo mesmo. Ele me explicou os períodos em que viviam, o tamanho, se eram carnívoros ou herbívoros, hábitos, essas coisas...
De todos que ele me "apresentou", o que eu mais gostava era o Espinossauro que, segundo Mateus, era muito mais "casca-grossa" que o temido T-Rex, mas que pertencia a um período diferente e, por isso, nunca se confrontaram. Ele dizia que toda essa fama e glória do T-Rex deveria ser dada aos espinossauros. Eu concordava. Em verdade, ainda concordo.

Daí em diante, minhas tardes ficavam fracionadas entre as brincadeiras com os garotos da rua e as conversas com Mateus. Apesar das minhas constantes insistências, ele jamais se juntava aos demais nas brincadeiras, falava que não podia em função de uma osteomielite que teve na perna direita. Depois de uns dias parei de insitir. Nós acabamos por criar uma amizade muito forte, éramos crianças e, nessa época, as amizades vem de forma muito rápida, intensa e verdadeira. Mas, infelizmente, os dias passam.

E os dias passaram e o termo das férias se aproximava.

Lembro de ter visto Mateus sair com o avô, num fim de tarde bem monótono, na última sexta-feira daquele mês de julho, dia 27. Ele já tinha me dito que visitar iam uns tios no interior e que voltariam apenas na terça, dia 31, véspera do primeiro dia de aula. Não obstante à ausência de Mateus, esse último fim de semana parece ter sido o mais divertido. Percebi que brincara muito pouco nos últimos dias e, ao que parece, todos queriam aproveitar ao máximo as tardes de liberdade antes da volta à escola. Comentei com os demais que seria bem legal se o Mateus se juntasse a nós, mas nenhum deles o conhecia.

Aquela terça-feira, 31 de julho, último dia do mês, chegou como um balde de água fria. Acordei com barulho de chuva no telhado. Perto do meio-dia a chuva passou, mas daí em diante o dia ficou deveras modorrento, preferi tomar aquele cenário climático como  uma manifestação de desgosto pelo fim das férias. Lá pelo meio da tarde me senti um pouco estranho e fui sentar no muro de casa, lá fiquei por um bom tempo a remoer aquela sensação (hoje sinto-a com frequência, é uma mescla de vazio, solidão, tristeza e afins). Pois bem, durante esse tempo fiquei a esperar a volta de Mateus e seu avô. A noite chegou e ninguém apareceu. Lembro que minha mãe estacou do meu lado e perguntou o porquê da cara triste. Respondi que estava daquele jeito porque meu amigo não tinha voltado. Disse onde ele morava e ela retrucou: "achei que não morasse ninguém naquela casa, pensei que o dono a tivesse abandonado..."

O fato é que Mateus e o avô não apareceram nesse dia, nem no dia seguinte, nem na semana seguinte. Fiquei abatido durante vários dias. E o que me deixava mais irritado é que ninguém conhecia ele, parece que  fui o único garoto da rua a perceber que existia um igual naquela casa e, consequentemente, o único a dar pela falta dele.

Um dia cheguei da escola e vi uma ambulância e várias pessoas na frente da casa do Mateus e, ao me aproximar, vi um homem muito idoso numa maca. Tentei ver o interior da casa e localizar o Mateus, mas foi em vão. Lembro de ter visto seu avô apenas uma vez, eles estavam de costas, de mãos dadas e indo embora mas, mesmo assim, tinha certeza absoluta de que aquele senhor era o avô dele. Não tinha como não ser! O que me deixava preocupado é não achar o Mateus. Onde ele estaria agora? Com quem ficaria enquanto o avô estivesse no hospital? Será que era algo muito sério??

Forcei a passagem e fui contido perto da maca, mas ainda pude ver o rosto do homem: parecia-me a pessoa mais velha do mundo, muito magro e enrugado, o rosto pálido e debilitado lembrava, de longe, Mateus. A porta fechou e a ambulância seguiu. Fiquei inquieto com aquilo durante os dias que se seguiram. Queria saber onde estava meu amigo e como estava o avô dele.

Juro que não acreditei quando, dias depois, ouvi aquela história (que chegou até a sair no jornal):

- Idoso morre depois de fugir de Hospital -

Pelo que eu soube, esse homem tinha 72 anos e estava internado em estado de coma após de sofrer um AVC. Ele recobrou a consciência e ficou estável depois de um tempo, algo em torno de 25 dias e, tão logo se viu sem vigilância, fugiu do hospital! Segundo consta, depois da fuga, ele andou durante algumas horas até encontrar essa casa abandonada. Entrou e lá ficou durante um tempo até sofrer outro AVC. Um vizinho ouviu o barulho da queda e foi averiguar, viu o corpo e acionou a emergência mas, quando o socorro chegou, ele já estava morto.

Nos dias que se seguiram, minha rotina quase voltou ao normal, exceto por um aperto no peito, oriundo da preocupação com meu amigo... Por esses dias, um casal chegou àquela velha casa (em verdade eram irmãos). Marcos e Luana eram filhos do proprietário que, por conta dos problemas de saúde, ficou aos cuidados de Marcos, o mais velho.

Eles conversaram com algumas pessoas da rua sobre o imóvel, seu estado e tudo mais, ao que tudo indica iriam vendê-lo. Simpatizei de imediato com eles, tanto que ficamos algum tempo conversando. Quando perguntei sobre Mateus, o neto daquele senhor, ambos ficaram em silêncio, depois se entreolharam estranhamente e disseram, quase em uníssono: "Papai não tinha netos... Somos os únicos filhos dele".

"Como assim? Claro que tinha!! Onde 'tá o Mateus?"

Eles se olharam de novo, de forma mais estranha ainda e disseram... "Não, ele não tinha nenhum neto e... Mateus... Mateus era o nome do papai..."




segunda-feira, abril 02, 2012

Qual o gosto do jambo?



Outro dia, há mais ou menos uma semana atrás, em um churrasco na casa de um amigo, arrisquei uma subida em um alto muro só pra "subtrair" um jambo da árvore do vizinho dele. Anteontem pela manhã, quando o ônibus parou no semáforo da Pedro Alvares Cabral com a Tavares Bastos, olhei de relance pro lado e vi o chão tomado daquela indescritível tonalidade, situada entre o carmim e o magenta, que nós todos conhecemos como "cor de jambo": a calçada estava tomada por frutos maduros. Hoje, quando o ônibus passou pelo Ver-o-Peso, foi como se eu estivesse amassando um jambo com as mãos, tal era o cheiro que exalava da "seção" de frutas do Mercado, repleto de jambos e mais jambos em cestas e mais cestas. À noite o chefe da redação abre uma sacola, tira um jambo e pergunta a alguém: "estão lavados?".

Ou seja, é só chegar o tempo de jambo, que ele se torna constante no dia-a-dia do paraense! Que o jambo é rico em ferro, proteínas e sei-lá-mais-o-quê todo mundo deve sabe, não estou aqui pra falar disso, quem quiser saber mais é só acessar a página da fruta na Wikipédia.

Não preciso dizer que adoro jambo. Creio que seja a fruta que eu mais gosto e também a que eu mais comi em toda a vida.

Quando crianças, meu irmão e eu sempre íamos com meu pai pro trabalho dele. Era numa sede campestre gigantesca do grupo Yamada, na Augusto Montenegro. "Três Corações". O lugar era cheio de campos de futebol, lagos artificiais, piscinas, mato e árvores de todo tipo. Logo na entrada, tínhamos um caminho enorme, ladeado de jambeiros, passávamos boa parte do nosso tempo por lá, em cima das árvores, apanhando e comendo jambos, dentre outras frutas.

Tive ótimos momentos com meu irmão nessa época. Horas e mais horas correndo, brincando, subindo em árvores, jogando bola sozinhos em campos de futebol enormes, nadando, "canoando", essas coisas que toda criança deveria fazer. E entre uma missão e outra, sempre tinha um jambo pra comer. Apanhávamos às dezenas, centenas! Comíamos até não aguentar mais e o restante levávamos pra casa, pra comer depois.

E, pra mim, é esse o gosto que o jambo tem: gosto de infância.

Gosto de nuvem... e de infância.

terça-feira, março 20, 2012

Renato Manfredini Jr - Casa velha, em ruínas...

"Zapeando" pela Wikipédia, deparei-me com a biografia do Renato Russo e a menção à uma certa redação, "Casa velha, em ruínas...", feita nos tempos de escola, quando ele ainda tinha perto de seis anos. O artigo falava que a redação estava "disponível na íntegra". Ora pois, fui atrás da dita cuja e achei o manuscrito que agora compartilho aos que, assim como eu, desconheciam-no...


Manuscrito retirado de Memorial Renato Russo (Site Oficial)

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Uma tarde em Cascais

Sempre tento dar alguma utilidade ao meus períodos de ócio, em verdade, quase nunca consigo. Hoje à tarde dedicava-me à essa infrutífera tarefa quando, sem mais nem porquê, me veio à cabeça o nome "Cascais'... Fica perto de Lisboa, Portugal. É um lugar belíssimo que, provavelmente, eu talvez nunca chegue a conhecer.

***


***

Por ruas e vielas da antiga Cascais,
No magro rosto um tímido sorriso,
Ia um moço franzino, passo indeciso,
Rumo ao mar nobre dos seus ancestrais.

Azul mar beijava as pedras do cais,
Embalava as traineiras com preciso
Balanço e enquanto, das aves, o riso,
Soava magano nos alvos areais.

Era a vila castiça! Vila formosa
Da costa do sol! Era a rubra rosa
Dos extensos jardins da egrégia Lisboa!

Inda o vejo passear na orla do mar,
Os seus olhos a sonhar....a sonhar...
E no bolso o tempo, que veloz se escoa.




Fontes:
Foto: "The Atlantic Ocean by the Guincho coast", disponível em Wikipédia/Wikimedia
Soneto: "Cascais" de Luís Santos, disponível em Luso-Poemas - Poemas, frases e mensagens