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quarta-feira, março 16, 2011

Uma pequena nota do subterrâneo

Nas lembranças de cada homem há coisas que ele não revelará para todos, mas apenas para seus amigos.

Há outras coisas que ele não revelará nem mesmo para seus amigos, mas apenas para si próprio, e ainda somente com a promessa de manter segredo.

Finalmente, há algumas coisas que um homem teme revelar até para si mesmo, e qualquer homem honesto acumula um número bem considerável de tais coisas. Quer dizer, quanto mais respeitável é um homem, mais dessas coisas ele tem.

Fiódor Dostoiévski, de Notas do Subterrâneo (1864).

terça-feira, dezembro 14, 2010

Deus e Dostoiévski

"[...] em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruido-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situacão"

ou seja,
Não existindo Deus, tudo seria permitido?

(Parêntesis)
Um dia eu pensei que se, por algum elemento misterioso, toda humanidade fosse extinta e, séculos, milênios a frente, surgisse uma nova humanidade. Será que se eles encontrassem os meus gibis da Liga da Justiça achariam que eles eram deuses ancestrais?
(Fim do parêntesis)

Continuando:
"Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito."

Desculpem-me os deístas, mas eu não consigo "ver" Deus como vocês...

Trechos extraídos de "Irmãos Karamazovi" (1879).
Imagem: Retrato de Fiódor quando jovem, por Trutovsky (1847).

sexta-feira, setembro 10, 2010

Mais Dostoiévski

Logo no início da quarta parte do romance "O Idiota", Fiódor Dostoiévski nos brinda com mais uma de suas inefáveis descrições acerca dos perfis de comportamento humano. Ele descreve a imensidão de pessoas "comuns" existentes em duas classes distintas: os de "inteligência limitada" e os de "alcance mais vasto". Para tal, tipificou os grupos de acordo com duas personagens, George Dandin e Podkolióssin, respectivamente.

O primeiro é um camponês que graças ao seu dinheiro, casa com Angélique de Sotenville, a filha de um fidalgo arruinado e cioso da sua nobreza. Devido à inabilidade de um mensageiro, Dandin vem a saber que a mulher se corresponde com um galanteador chamado Clitandre, e disso faz queixa aos sogros. Angélique, entretanto, não tem dificuldade em fazer com que as aparências fiquem a seu favor. Clitandre exige explicações, e Dandin vê-se obrigado a pedir-lhe desculpas. "Tu o quiseste, George Dandin", dizia a si mesmo George Dandin, que, eterno enganado, passa pelas piores adversidades, pondo em realce, como quis demonstrar Molière, a loucura que comete um homem ao casar com mulher de condição superior à sua.

O segundo, Podkolióssin, é o herói da melhor peça de Gógol (O Casamento, 1842). De caráter bastante enérgico, ele tem, por vezes, assomos de independência. Como, por exemplo, ao saltar pela janela na hora do casamento.

O primeiro grupo é, definitivamente, o mais feliz. Segundo Dostoiévski: "Nada é mais simples para essa gente comum, de inteligência restrita, do que se imaginar original e mesmo exceção, e folgar com essa ilusão, nunca chegando a perceber o equívoco. Basta a muitas de nossas mocinhas cortarem o cabelo de certo modo e usarem óculos azuis e se cognominarem de niilistas, para ficarem de vez persuadidas de que, com isso só, obtiveram automaticamente 'convicções' próprias. [...] Basta a certos indivíduos assimilar uma idéia expressa por outrem, ou ler qualquer página solta, para imediatamente acreditarem que essa é a sua opinião pessoal espontaneamente brotada de seu cérebro." (Dostoiévski, 1868).

Tão feliz quanto é o primeiro grupo, o segundo o é infeliz. "Pois o homem vulgar 'esperto', mesmo se se considera ocasionalmente, ou sempre, homem de gênio ou de originalidade, conserva o verme da dúvida enquistado em seu coração, o que, em muitos casos, arrasta o nosso homem sagaz ao extremo desespero. Mesmo quando se submete, o faz completamente envenenado, visto seu Intimo ser dirigido por sua vaidade. Mas o exemplo que tomamos foi extremo. Para a grande maioria dessa gente hábil as coisas não terminam assim tão tragicamente. O mais que acontece a tais pessoas é ficarem com o fígado afetado na velhice. Mas antes de desistirem e se humilharem, esses homens não raro fazem papéis de malucos; e tudo só pelo desejo de originalidade. E realmente há estranhos exemplos desta asserção; um homem direito, às vezes, por querer ser original, é capaz de cometer uma baixeza. Acontece comumente que um desses desprotegidos da sorte não só é honesto como bom; é o anjo da guarda da família e mantém, por meio do seu trabalho, não apenas os seus, mas também os estranhos. Mesmo assim não consegue descanso em toda a sua vida! O pensamento de que preencheu tão bem a sua vida, em vez de lhe dar conforto e consolo, muito pelo contrário, o irrita. 'Foi apenas nisto que consumi toda a minha vida?', diz ele. 'Foi nisto que me atolei dos pés àcabeça? Foi pois nisto que malbaratei minhas energias, o que me impediu de fazer algo de grande? Se não tivesse perdido tempo nisso eu teria, na certa, descoberto a pólvora ou a América, ou qualquer outra coisa, não sei precisamente qual, mas que teria descoberto, lá isso teria!' O que é mais característico nesses indivíduos é que nunca chegam a saber direito que coisa lhes foi destinada a descobrir e dentro de que são eles uns ases em descobertas. E todavia seus sofrimentos, suas ânsias pelo que deveriam ter descoberto, seriam bastantes para um Colombo ou um Galileu." (Dostoiévski, 1868).

E aí? Com qual grupo você se identifica? Ou melhor: Qual carapuça lhe serviu?

Fonte: DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. O Idiota. Coleção Obra-prima de cada Autor, Série Ouro #34. São Paulo: Martin Claret, 2006.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Dostoiévski

Lembro de uma época em que estava ávido por ler coisas novas, livros bons, não esses bestsellers e/ou autoajuda que lotam as prateleiras das livrarias. Não que eu não recomende, longe disso, são leituras fáceis que, com certeza, interessam a muitos (caso contrário não venderiam tanto) e, justamente por serem fáceis de ler, costumam atrair muitos para o salutar hábito da leitura.

Então sai à cata, uma Googada aqui, uma indicação ali, vim a conhecer o russo Fiódor Dostoiévski, que me encantou com suas narrativas impecáveis e descrições minuciosas. Resta lembrar que ele é considerado o maior escritor russo de todo os tempos, além de ser um dos maiores do mundo, tendo sido influência para autores como Nietzsche, Sartre, Freud, e a nossa Clarice Lispector.

A primeira de sua autoria que tive o deleite de ler foi "Crime e Castigo", que narra as angústias e sofrimentos de Raskólnikov, um jovem estudante que planeja o assassínio de uma agiota mas, no momento da execução do plano, acaba se vendo obrigado a cometer outro crime de igual teor. Gostei tanto que procurei outras obras de Dostoiévski, dentre as quais já consegui ler estão: "Crime e Castigo", "Recordações da Casa dos Mortos", "O Jogador" e "O Idiota". Mas além desses, pretendo ler muitos outros, o próximo da lista é "Os Irmãos Karamazov".

Alguns links interessantes:
Texto integral de "Crime e Castigo" em russo
Fiódor Dostoiévski na Wikipédia (biografia, obras, etc)
Alguns livros em PDF (Fórum PDL)